Ecologias

perspectivas e entrelaços da Educação ambiental com Arte

A Caminho de Mariana

Fotógrafo Marcelo Valle relata sua experiência em Mariana/MG após catástrofe provocada por rompimento de barragem de mineradora Samarco
por Marcelo Valle

Da edição 08 - Outras Ecologias

Marcelo Vale

Parte 1: Antes de ir…

Sou mi­nei­ro, não da­que­les que tra­ba­lham nas mi­nas, la­vras, ca­tas ou ja­zi­das ex­plo­ran­do mi­né­ri­os. Sou mi­nei­ro, da­que­le que é de­fi­ni­do co­mo “na­tu­ral” do es­ta­do de Minas Gerais. Nasci em Barbacena, lu­gar que cos­tu­mo apre­sen­tar co­mo uma ci­da­de his­tó­ri­ca que não deu cer­to. Próxima a Tiradentes e São João del Rey, ao con­trá­rio de su­as vi­zi­nhas, não pre­ser­vou seu pa­trimô­nio his­tó­ri­co e cul­tu­ral. A im­pres­são que te­nho é que fez o opos­to, apa­gan­do o que po­de, mantendo-se fi­el ape­nas às re­la­ções de po­der e su­bor­di­na­da às fa­mí­li­as Bias Fortes e Andradas que se re­ve­zam há mais de 300 anos. O fa­to é iro­ni­za­do e mui­to bem lem­bran­do por Fernando Sabino no be­lo li­vro “ O gran­de men­te­cap­to”.

Barbacena é cor­ta­da pe­la an­ti­ga li­nha de fer­ro da ex­tin­ta Rede Ferroviária Nacional S.A. — RFFSA. Das lem­bran­ças de in­fân­cia car­re­go co­mi­go as mui­tas ten­ta­ti­vas de con­tar os va­gões de trens que cru­za­vam a ci­da­de dia e noi­te car­re­gan­do mi­né­rio. Bem me lem­bro que sem­pre per­dia a con­ta. Mal sa­bia na­que­la épo­ca que era por meio des­ses trens que Minas san­gra­va.
Ainda san­gra. O mi­né­rio de fer­ro é um “com­mo­di­tie”, uma pa­la­vra in­gle­sa que sig­ni­fi­ca “mer­ca­do­ria”, usa­da pa­ra de­fi­nir o que cos­tu­má­va­mos cha­mar de “ma­té­ria pri­ma”. Produtos de ori­gem pri­má­ria, pra­ti­ca­men­te em es­ta­do bru­to , ex­plo­ra­dos e ven­di­dos em gran­de quan­ti­da­de pa­ra o mer­ca­do in­ter­na­ci­o­nal e com pre­ços de­ter­mi­na­dos por jo­ga­das des­se mes­mo mer­ca­do.
Minas é gran­de. Minas é Gerais. Qualquer de­sa­vi­sa­do da História que vi­si­te Minas com um olhar mais aten­to per­ce­be que o es­ta­do é cheio de ri­que­zas, que no (do) fun­do só faz au­men­tar a po­bre­za e a de­pen­dên­cia. Assim foi, as­sim é! Esse é o ca­so de Mariana e de ou­tras ci­da­des que se es­pa­lham pe­los Gerais. Adentrando os ser­tões de Guimarães Rosa, is­so fi­ca mais cla­ro, tan­tas são as ci­da­des com no­mes de pe­dras, mi­ne­rais, ge­mas, jói­as: Turmalina, Diamantina, Ouro Branco, Ouro Preto, Berílio, Lavras Novas, Catas Altas…

Mariana, ci­da­de co­lo­ni­al, pri­mei­ra ca­pi­tal de Minas Gerais, lo­ca­li­za­da a 12 quilô­me­tros de Ouro Preto (an­ti­ga Villa Rica) e apro­xi­ma­da­men­te a 90 quilô­me­tros de Belo Horizonte, atu­al ca­pi­tal. Teve sua ori­gem e eco­no­mia ba­se­a­das na ex­tra­ção de ou­ro e na agri­cul­tu­ra. Trezentos anos de­pois, com cer­ca de 60 mil ha­bi­tan­tes, a ba­se de sua eco­no­mia con­ti­nua sen­do o ex­tra­ti­vis­mo mi­ne­ral. O ou­ro se foi, o mi­né­rio de fer­ro se vai . A eco­no­mia da ci­da­de cres­ce a me­di­da em que se ex­pan­de a ati­vi­da­de mi­ne­ra­do­ra, e com is­so cres­ce tam­bém sua de­pen­dên­cia

No dia 05 de no­vem­bro de 2015, Mariana en­trou mais uma vez pa­ra a História, ago­ra co­mo pro­ta­go­nis­ta do mai­or “de­sas­tre” am­bi­en­tal que o Brasil já viu (viu?).

Fiquei sa­ben­do do rom­pi­men­to da bar­ra­gem pe­las no­tí­ci­as de jor­nais e pe­las re­des so­ci­ais. Falava-se, so­bre­tu­do, da con­ta­mi­na­ção do Rio Doce. Fiquei im­pres­si­o­na­do com o que vi, o su­fi­ci­en­te pa­ra que­rer ver de per­to. No dia 16 de no­vem­bro con­vi­dei uma ve­lha ami­ga dos tem­pos da mi­nha pas­sa­gem pe­la Biologia pa­ra vi­si­tar­mos a re­gião atin­gi­da. E, pa­ra mi­nha sur­pre­sa, ela não só acei­tou, co­mo alu­gou uma ca­sa em Ouro Preto, jun­tou a fa­mí­lia, fez as ma­las , fe­chou con­ta­tos, abriu por­tas e par­ti­mos no dia 05 de de­zem­bro, exa­ta­men­te um mês após o de­sas­tre. Eu não fa­zia ideia do que en­con­tra­ria ou se de fa­to en­con­tra­ria!

Parte 2: Primeiras Impressões

Saí de Belo Horizonte com des­ti­no a Ouro Preto, por vol­ta das 10 ho­ras da ma­nhã, par­tin­do da ro­do­viá­ria, com pre­vi­são de che­ga­da em tor­no do meio dia. Um par de ho­ras pa­ra per­cor­rer os 90 quilô­me­tros que se­pa­ram as du­as ci­da­des. Minha ba­ga­gem es­ta­va cheia de ex­pec­ta­ti­vas. Meus ami­gos par­ti­ram de Juiz de Fora e nos en­con­tra­ría­mos na ca­sa alu­ga­da, con­for­me o com­bi­na­do. Cheguei mais ce­do, fui ca­mi­nhan­do até nos­sa hos­pe­da­gem, uma lin­da ca­sa co­lo­ni­al, bran­ca com ja­ne­las e por­tas ver­des, bem pró­xi­ma à Igreja do Rosário. Pouco tem­po de­pois meus ami­gos che­ga­ram. Vieram de carro,partindo de Juiz de Fora. Um ca­sal de adul­tos, Bruno e Beth e três jo­vens, Rafael, Carol e Gabi. Pegaram a ve­lha es­tra­da que pas­sa por Conselheiro Lafaiete e Ouro Branco.

Pico do Itacolomi Divisa de op e mariana

Vale lem­brar que nes­se dia o de­sas­tre com­ple­tou exa­ta­men­te um mês. Depois do al­mo­ço par­ti­mos pa­ra Mariana de ôni­bus, um per­cur­so que não le­va mais do que meia ho­ra. Nossa in­ten­ção era par­ti­ci­par de um ato mar­ca­do pa­ra as 15:30 na pra­ça Gomes Freire (pra­ça do Coreto) lo­ca­li­za­da atrás da Matriz. Ficamos sa­ben­do atra­vés das re­des so­ci­ais, chamava-se “Um mi­nu­to de si­re­ne”, or­ga­ni­za­do pe­la Rede “BentoFALA”, cri­a­da por mo­ra­do­res de Ouro Preto e Mariana que se mo­bi­li­za­ram após o de­sas­tre. No ca­mi­nho, já che­gan­do ao cen­tro de Mariana pas­sa­mos por al­guns ho­téis que pa­re­ci­am es­tar hos­pe­dan­do de­sa­lo­ja­dos pe­lo rom­pi­men­to da bar­ra­gem, es­sa in­for­ma­ção só veio a se con­fir­mar de­pois. Minha pri­mei­ra im­pres­são era de que Mariana pa­re­cia se­guir sua vi­da nor­mal de uma pa­ca­ta ci­da­de de in­te­ri­or. A prin­cí­pio não per­ce­bi ne­nhu­ma re­fe­rên­cia ao de­sas­tre com ex­ce­ção de al­gu­mas pa­la­vras de pro­tes­to pin­ta­das em le­tras pre­tas na la­te­ral de uma ca­sa: SAMARCO/VALE ASSASSINAS! PIMENTEL E DILMA SÃO CÚMPLICES!

Chegando em Mariana, dia 05 de de­zem­bro de 2015. Chegamos atra­sa­dos, um pou­co de­pois das 16 ho­ras. Seguimos pa­ra a pra­ça achan­do que o even­to já ha­via co­me­ça­do. Aos pou­cos a ci­da­de foi dan­do mais si­nais, a to­do o mo­men­to vía­mos cir­cu­lar pe­las ru­as al­gu­mas ca­mi­nho­ne­tes su­jas de bar­ro com uma nu­me­ra­ção es­tam­pa­da na la­te­ral e na par­te tra­sei­ra. Estavam a ser­vi­ço da SAMARCO ou de al­gu­ma ter­cei­ri­za­da. A ci­da­de es­ta­va va­zia, com pou­co mo­vi­men­to de tu­ris­tas e mo­ra­do­res, a ca­mi­nho da pra­ça pas­sa­mos por dois car­ros de im­pren­sa es­ta­ci­o­na­dos ao la­do da ma­triz. Na pra­ça ha­via pou­cas pes­so­as, não mais que trin­ta, por ins­tan­tes achei que es­ti­ves­se no lo­cal er­ra­do ou que che­ga­mos mui­to atra­sa­dos. No en­tan­to o ato não ti­nha co­me­ça­do. “Gente bran­ca com ca­ra de uni­ver­si­tá­ri­os, in­te­lec­tu­ais e ar­tis­tas”, pen­sei co­mi­go. Desculpem-me o pre­con­cei­to, mas nin­guém com “ca­ra” de tra­ba­lha­dor ru­ral, nem mes­mo de mo­ra­dor da ci­da­de. Onde es­tá o po­vo da ci­da­de? Onde es­tão os es­tu­dan­tes?

Ato Um minito de sirene praça Gomes Freire Mariana MG Dia 05 de dezembro de 2015 Por Marcelo Valle

O ato es­ta­va va­zio, mau si­nal. Parece que não hou­ve tem­po pa­ra mo­bi­li­za­ção. O even­to “ Um mi­nu­to de Sirene”, se­gun­do os or­ga­ni­za­do­res, ti­nha ba­si­ca­men­te três ob­je­ti­vos:

1) Realizar um ato em me­mó­ria das pes­so­as que per­de­ram su­as vi­das ou que ain­da encontram-se de­sa­pa­re­ci­das;
2) Relembrar a au­sên­cia de um pla­no de se­gu­ran­ça nas co­mu­ni­da­des si­tu­a­das pró­xi­mas à área das bar­ra­gens ( a idéia da si­re­ne co­mo sím­bo­lo do ato veio des­sa au­sên­cia);
3) Criar um ri­tu­al a ser re­a­li­za­do to­do mês até que a si­tu­a­ção da po­pu­la­ção atin­gi­da se­ja ple­na­men­te re­sol­vi­da.

Duran­te o ato fo­ram li­dos em voz al­ta o no­me dos mor­tos e de­sa­pa­re­ci­dos. Um mi­nu­to de si­lên­cio. Flores fo­ram dis­tri­buí­das e de­po­si­ta­das no cen­tro da pra­ça. Alguns mi­nu­tos de­pois uma ca­mi­nho­ne­te com cai­xas de som na ca­çam­ba cir­cu­lou pe­lo cen­tro da ci­da­de re­pro­du­zin­do o som de uma si­re­ne. Soubemos que um ato ecu­mê­ni­co es­ta­va sen­do re­a­li­za­do na­que­le mes­mo dia e ho­rá­rio, na Arena Mariana, em me­mó­ria ao de­sas­tre. Imaginamos que tal­vez es­se te­nha si­do um dos mo­ti­vos pe­los quais a pra­ça es­ta­va tão va­zia. Mais tar­de des­co­bri­mos que o ato ecu­mê­ni­co tam­bém não es­ta­va cheio.

Lista com os nomes dos mortos e desaparecidos
O ato sem a par­ti­ci­pa­ção de pes­so­as da ci­da­de, ou até mes­mo dos atin­gi­dos di­re­ta­men­te pe­la bar­ra­gem me pa­re­ceu in­di­car al­gu­mas re­la­ções:

1) Uma evi­den­te di­co­to­mia en­tre cam­po e ci­da­de, en­tre o ru­ral e o ur­ba­no, co­mo se a área atin­gi­da (me re­fi­ro mais es­pe­ci­fi­ca­men­te a Bento Rodrigues) fos­se uma área sem im­por­tân­cia, área de atra­so, pou­co po­vo­a­da e que já sa­bia dos ris­cos que cor­ria. Mariana é mui­to mais do que Bento Rodrigues, tu­do não pas­sou de um aci­den­te, por­tan­to a cul­pa não era da SAMARCO. A cul­pa era das ví­ti­mas, pois, co­mo já foi di­to, “eles sa­bi­am do ris­co que es­ta­vam cor­ren­do”. Essa im­pres­são fi­cou ain­da mais for­te de­pois de uma bre­ve con­ver­sa com uma se­nho­ra que tra­ba­lha nu­ma pa­da­ria na Rua Direita. A con­ver­sa te­ve iní­cio quan­do per­gun­ta­mos por que a ci­da­de es­ta­va tão sem mo­vi­men­to mes­mo per­to de um fe­ri­a­do (Nossa Senhora Imaculada Conceição). Ela dis­se que a ci­da­de es­ta­va va­zia, pois os tu­ris­tas es­ta­vam com me­do de­pois dos acon­te­ci­men­tos, eles na ver­da­de não sa­bem que o aci­den­te foi na área ru­ral, dis­tan­te, num “po­vo­a­do­zi­nho”. Segundo ela, o pes­so­al da SAMARCO che­gou a ofe­re­cer re­cur­sos pa­ra eles mais de uma vez e ten­tou de­sa­pro­pri­ar a área. Os mo­ra­do­res não acei­ta­ram as ofer­tas e es­ta­vam pe­din­do va­lo­res mais al­tos do que os ter­re­nos e ca­sas va­li­am. Escolheram fi­car, lo­go, em par­te a cul­pa foi de­les!

2) Outra im­pres­são cla­ra e que vai se con­fir­man­do atra­vés de al­gu­mas con­ver­sas com mo­ra­do­res da re­gião é que há uma na­tu­ra­li­za­ção da ati­vi­da­de mi­ne­ra­do­ra. A mi­ne­ra­ção atra­ves­sa vá­ri­as ge­ra­ções e bem ou mal é res­pon­sá­vel pe­la mai­or par­te das re­cei­tas da ci­da­de. A mi­ne­ra­ção traz o pro­gres­so (?!). Em par­te ocul­ta um grau de de­pen­dên­cia mui­to gran­de em re­la­ção às em­pre­sas e um me­do enor­me de fi­car de­sem­pre­ga­dos, se­rem per­se­gui­dos ou pu­ni­dos.

3) Passado um mês do de­sas­tre, as pes­so­as en­vol­vi­das di­re­ta­men­te ( os atin­gi­dos) já es­tão can­sa­das e fo­ram mui­to as­se­di­a­das pe­la im­pren­sa e por or­ga­ni­za­ções, tal­vez por is­so pre­fi­ram não se ex­por.

4) Há apa­ren­te­men­te um dis­cur­so he­gemô­ni­co que fa­vo­re­ce as mi­ne­ra­do­ras e si­len­cia ou­tros dis­cur­sos pos­sí­veis. Mais uma vez pa­re­ce pre­va­le­cer a his­tó­ria úni­ca, co­mo se a mi­ne­ra­ção fos­se a úni­ca op­ção pa­ra aque­les que vi­vem ali.

O even­to pa­re­ce ter si­do or­ga­ni­za­do por pes­so­as li­ga­das à UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto) , em­bo­ra bem in­ten­ci­o­na­do , pa­re­ceu um mo­vi­men­to iso­la­do e com pou­ca ca­pa­ci­da­de de mo­bi­li­za­ção e ar­ti­cu­la­ção.

Uma for­te chu­va de­sa­bou so­bre a ci­da­de. Voltamos pa­ra Ouro Preto. À noi­te, pou­co an­tes de dor­mir, nos reu­ni­mos e fi­ze­mos uma ava­li­a­ção co­le­ti­va do dia. Na ma­nhã se­guin­te ten­ta­ría­mos che­gar até as áre­as atin­gi­das pe­la la­ma e re­jei­tos.
A vi­a­gem se­gue…

Terceira par­te: Chegando em Bento Rodrigues

Acor­dei ce­do, pou­co an­tes das 6 ho­ras, o sol já nas­ce­ra. Uma be­la luz pai­ra­va so­bre o Pico do Itacolomi. Entendi a luz co­mo um con­vi­te, não re­sis­ti , pe­guei a câ­me­ra e fui dar uma vol­ta pe­las re­don­de­zas. Todos na ca­sa ain­da dor­mi­am. Ansiedade gran­de, nes­sa ma­nhã vi­si­ta­ría­mos a co­mu­ni­da­de de Bento Rodrigues, a pri­mei­ra a ser atin­gi­da pe­lo rom­pi­men­to da bar­ra­gem do Fundão. Encontraríamos dois com­pa­nhei­ros do MAM (Movimento dos Atingidos pe­la Mineração) por vol­ta das 09h 30 min. Eles tra­ba­lham na for­ma­ção e cons­ci­en­ti­za­ção de tra­ba­lha­do­res so­bre os im­pac­tos das mi­ne­ra­do­ras, co­nhe­ci­am a fun­do os pro­ble­mas cau­sa­dos pe­la mi­ne­ra­ção e já ha­vi­am vi­si­ta­do a área atin­gi­da an­tes e de­pois da ca­tás­tro­fe. Seriam nos­sos gui­as.

Saí­mos de Ouro Preto ru­mo à co­mu­ni­da­de de Bento Rodrigues, que fi­ca apro­xi­ma­da­men­te a 35 quilô­me­tros do cen­tro de Mariana. Partimos sem ter cer­te­za se con­se­gui­ría­mos che­gar até as áre­as atin­gi­das. Seguimos pe­la MG-129, que li­ga Itabira a Conselheiro Lafaiete. A to­do o mo­men­to cru­zá­va­mos com ca­mi­nho­ne­tes a ser­vi­ço da SAMARCO/BHP Billiton. Um lon­go tre­cho da es­tra­da é la­de­a­da por um ma­ci­ço gran­di­o­so e be­lo e, ao que pa­re­ce, já foi “lo­te­a­do” pe­las mi­ne­ra­do­ras pa­ra a ex­plo­ra­ção do mi­né­rio de fer­ro. Pela ja­ne­la do car­ro con­se­gui­mos ver al­gu­mas mi­nas do com­ple­xo Alegria, a me­di­da que se­guía­mos a pre­sen­ça das mi­ne­ra­do­ras fi­ca­va ca­da vez mais for­te.

Em cer­to mo­men­to, pa­ra­mos no acos­ta­men­to à bei­ra da es­tra­da, ca­mi­nha­mos um pou­co en­tre eu­ca­lip­tos até um pon­to on­de con­se­gui­mos ver a me­ga es­tru­tu­ra da bar­ra­gem de Germano. Essa é bar­ra­gem de con­ten­ção de re­jei­tos mais al­ta do Brasil, com 175 me­tros de al­tu­ra e com ca­pa­ci­da­de to­tal de 200 mi­lhões de m³ de re­jei­tos. Ao lon­ge é pos­sí­vel ver a bar­ra­gem do Fundão, que rom­peu , li­be­ran­do cer­ca de 53 mi­lhões de m³ de água, la­ma, re­jei­tos e me­tais pe­sa­dos que che­ga­ram até a foz do Rio Doce no li­to­ral do Espírito Santo, dei­xan­do um ras­tro in­cal­cu­lá­vel de des­trui­ção e mor­te. A la­ma per­cor­reu mais de 600 quilô­me­tros!!!

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As du­as bar­ra­gens es­tão mui­to pró­xi­mas uma da ou­tra, no mo­men­to do rom­pi­men­to es­ta­vam sen­do re­a­li­za­das obras de al­te­a­men­to e uni­fi­ca­ção en­tre Fundão e Germano pa­ra a cri­a­ção de uma me­ga­bar­ra­gem. Há ain­da uma ter­cei­ra bar­ra­gem nas pro­xi­mi­da­des, a de Santarém. Embora a bar­ra­gem do Fundão fos­se a mais no­va en­tre as três, co­me­çan­do su­as ati­vi­da­des em 2008 ela já apre­sen­ta­va uma sa­tu­ra­ção pre­co­ce. As obras de uni­fi­ca­ção e ex­pan­são as­so­ci­a­das a ou­tros fa­to­res po­dem ter si­do res­pon­sá­veis pe­lo rom­pi­men­to. Existe a for­te pos­si­bi­li­da­de de um “efei­to do­mi­nó” em que o rom­pi­men­to de uma bar­ra­gem te­nha afe­ta­do as ou­tras e a ca­tás­tro­fe pos­sa to­mar pro­por­ções ain­da mai­o­res. Após o rom­pi­men­to da bar­ra­gem do Fundão, em di­ver­sos lo­cais que vi­si­ta­mos os bom­bei­ros e a de­fe­sa ci­vil re­ti­ra­vam os mo­ra­do­res das áre­as de ris­co con­si­de­ran­do ou­tro pos­sí­vel rom­pi­men­to. Vale des­ta­car aqui par­te do Relatório Final pro­du­zi­do pe­lo PoEMAS (Grupo Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade)- “Antes fos­se mais le­ve a car­ga: ava­li­a­ção dos as­pec­tos econô­mi­cos, po­lí­ti­cos e so­ci­ais do de­sas­tre da SAMARCO/Vale/BHP em Mariana (MG)”:

“As al­ter­na­ti­vas lo­ca­ci­o­nais pro­pos­tas no EIA (Estudo de Impacto Ambiental) da bar­ra­gem do Fundão com­pa­ra­vam o va­le do cór­re­go Fundão com os va­les dos cór­re­gos Natividade e Brumado (es­te úl­ti­mo já em vis­ta de uma fu­tu­ra bar­ra­gem de re­jei­to, co­mo des­cre­ve o do­cu­men­to), to­das pró­xi­mas à ex­tin­ta mi­na do Germano. Chama a aten­ção o fa­to da bar­ra­gem do Fundão ser a úni­ca op­ção, den­tre as três al­ter­na­ti­vas, que pro­du­zi­ria im­pac­tos e efei­to cu­mu­la­ti­vo di­re­tos so­bre as bar­ra­gens do Germano, ao la­do, e Santarém, a ju­san­te, es­ta úl­ti­ma on­de se re­cu­pe­ra­va água pa­ra o pro­ces­so de con­cen­tra­ção. As ou­tras du­as al­ter­na­ti­vas se en­con­tra­vam em ou­tra mi­cro­ba­cia, que não dre­nam em con­ver­gên­cia cu­mu­la­ti­va em di­re­ção à co­mu­ni­da­de de Bento Rodrigues. Ou se­ja, ca­so ou­tra al­ter­na­ti­va lo­ca­ci­o­nal fos­se es­co­lhi­da na épo­ca, a co­mu­ni­da­de de Bento Rodrigues es­ta­ria me­nos ame­a­ça­da pe­lo rom­pi­men­to das bar­ra­gens da Samarco. Se a bar­ra­gem ti­ves­se si­do cons­truí­da em qual­quer um dos ou­tros dois va­les, pos­si­vel­men­te, os im­pac­tos e as per­das cau­sa­das pe­lo rom­pi­men­to te­ri­am si­do me­no­res, pois o po­vo­a­do es­ta­ria mais afas­ta­do da bar­ra­gem ou nem mes­mo es­ta­ria na ro­ta da la­ma”.

O re­la­tó­rio apon­ta tam­bém pa­ra a pos­si­bi­li­da­de de que a es­co­lha do lo­cal da bar­ra­gem do Fundão pri­o­ri­zou ques­tões econô­mi­cas, re­du­zin­do cus­tos, pois apro­vei­ta­ria os sis­te­mas das bar­ra­gens já exis­ten­tes, evi­tan­do mais gas­tos na im­ple­men­ta­ção em uma ou­tra área.
Seguimos vi­a­gem até o dis­tri­to de Santa Rita Durão pas­san­do por uma es­tra­da si­nu­o­sa e cheia de al­tos e bai­xos, cor­tan­do uma área de pre­ser­va­ção am­bi­en­tal. Cruzando o vi­la­re­jo, se­gui­mos por uma es­tra­da de ter­ra por al­guns quilô­me­tros até nos de­pa­rar­mos com uma bar­rei­ra po­li­ci­al in­ter­rom­pen­do a pas­sa­gem.

Nes­se mo­men­to achei que nos­sa vi­a­gem aca­ba­ria ali. Conversamos com os po­li­ci­ais e nos apre­sen­ta­mos co­mo pes­qui­sa­do­res e que gos­ta­ría­mos de se­guir vi­a­gem até Bento Rodrigues. Fomos li­be­ra­dos sem pro­ble­mas.

Segui­mos mais al­guns me­tros, de re­pen­te a pai­sa­gem se des­cor­ti­na , ve­mos a nos­sa fren­te um gran­de des­cam­pa­do. A prin­cí­pio la­ma e na­da mais. Com um olhar mais cui­da­do­so, per­ce­be­mos en­tre o mar de la­ma, os ves­tí­gi­os do que foi uma co­mu­ni­da­de. Um ce­ná­rio ma­cro, des­trui­ção a per­der de vis­ta. Da la­ma pa­re­ce emer­gir ruí­nas. Em um ins­tan­te pas­sam pe­la ca­be­ça cen­te­nas de ima­gens de fil­mes ca­tás­tro­fe ou de guer­ra, pa­re­ce que o cé­re­bro bus­ca uma an­co­ra­gem, mas não há por­to se­gu­ro. Um frio na es­pi­nha. Nada que se apro­xi­me da­qui­lo que ve­mos com os pró­pri­os olhos!

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Cidade sím­bo­lo do Rio Doce se­gu­rou des­tro­ços da bar­ra­gem
O im­pac­to do rom­pi­men­to da bar­ra­gem foi as­tronô­mi­co e afe­tou inú­me­ras ci­da­des, que ain­da ho­je apre­sen­tam di­fi­cul­da­des de su­prir ne­ces­si­da­des bá­si­cas da po­pu­la­ção. 

A vi­a­gem de Marcelo Valle não ter­mi­na por aqui. Aguarde a pró­xi­ma edi­ção do Astrolábio e os no­vos ca­pí­tu­los de “A Caminho de Mariana”

Fonte : Perfil de Marcelo Valle na Medium