Arte/Educação

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A Gaiola e a Asa

A escola e a desconstrução da ideia de deficiência: o que é normalidade? e o que é ser eficiente?
por Arheta Andrade

Da edição 09 - Reinvenção da Educação

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Considero que um dos maiores desafios da escola em relação à questão da pessoa com deficiência é mudar a ideia que se faz dentro dela a respeito da noção mesma de deficiência. Nesse sentido, um bom começo é a desconstrução e a primeira coisa a ser desconstruída deveria ser o medo. O medo pavoroso daquilo que escapole às rédeas do padrão. A segunda coisa é a desconstrução da ideia de normalidade e em seguida a desconstrução da noção de eficiência.

É muito comum que as pessoas de um modo geral tenham medo de aproximações das pessoas com deficiência. Não sabem como abordá-las ou como devem se comunicar e têm dúvidas quanto ao que devem dizer/fazer. Então a solução do abandono vai ocupando espaço, afinal, alguém com mais jeito para lidar com tais pessoas vai aparecer ou algum lugar mais apropriado há de se apresentar. Isso também acontece, com frequência, no campo da educação. Nele, a ideia de normalidade que tão entranhadamente carregamos se faz imperiosa. É assim que às bordas dos “normais” se acomodam aqueles cuja “eficiência” não se realiza. Deparamo-nos com o dilema da eficiência e, consequentemente, seu duplo. No espaço escolar, por exemplo, a avaliação da eficiência dos saberes disciplinares é uma das referências a orientar professores nos modos como devem receber seus alunos. Quando tais referências não se apresentam ou não aparecem conforme o esperado um grande incômodo se instala e, muitas vezes, traz consigo, a tiracolo, a exclusão.

O medo se desfaz com a aproximação. Quando encontramos as pessoas, e não apenas as suas deficiências, o medo cede lugar ao encontro e deste podem nascer muitas possibilidades. É bem recorrente que uma das primeiras possibilidades que se apresente seja a da constatação da relatividade da noção de normalidade. Até porque ser normal ou anormal é reduzir-nos a uma dualidade bastante opressora e significativamente relativa. Normal para quem? A partir de que ponto de vista? Quem diz que o normal é normal? Tudo são construções! Isso a história da deficiência não nos deixa esquecer! É necessário o entendimento de que as noções de deficiência são socialmente construídas, estruturadas a partir de fatores/valores econômicos, políticos, culturais e ambientais, particularmente na modernidade. E que as possibilidades de representações da deficiência, nas diferentes culturas, podem extrapolar os paradigmas traçados pelo positivismo moderno que pauta e hegemoniza a noção de deficiência de acordo com um modelo médico que define o corpo em normal e anormal.

Não pretendo com esta breve reflexão banalizar as necessidades específicas de formação, qualificação e aprendizados que a atuação junto a pessoas com deficiência exige. Muito menos minimizar as precisões de ordens estruturais, sociais, políticas, econômicas, etc. Sim, é preciso aprender uma razoável quantidade de saberes específicos; sim, dá um trabalho diferente porque é um aprendizado constante entre dúvidas e descobertas; sim, é preciso haver certa militância para que as conquistas sejam reais. Mas tão importante quanto todos esses aspectos é exercitar a desconstrução e revisitar os paradigmas que constituem os nossos pensares. Aqui trago à tona apenas alguns. Eles podem ser nossas gaiolas ou nossas asas.