Arte/Educação

memória, conceitos, reflexões e práticas da Educação através da Arte

Alguns passos pelos caminhos de uma Outra Educação

19 idéias para tornar um pouco mais esperançosamente integral o que chamamos de educação integral.

por Carlos Rodrigues Brandão

Da edição 04 - Arte da Palavra

Carlos Brandão no en­con­tro Fios de Prosa, no Tear/ Fevereiro de 2015

Reca­do pa­ra quem vá ler es­te es­cri­to
Este es­cri­to, as­sim co­mo to­dos os des­ta sé­rie, é um an­ti­go ou um no­vo tex­to que es­cre­vi. Em al­guns ca­sos po­de ser o ca­pí­tu­lo de um li­vro ain­da vi­gen­te ou já es­go­ta­do. Em ou­tros, um ar­ti­go de re­vis­ta de no­vos ou ve­lhos tem­pos. Em ou­tros ca­sos, um es­cri­to nun­ca pu­bli­ca­do e es­cri­to pa­ra ser di­a­lo­ga­do em en­con­tros, sim­pó­si­os e equi­va­len­tes. Alguns fo­ram re­vis­tos e atu­a­li­za­dos. Outros não. Alguns têm ao fi­nal uma bi­bli­o­gra­fia com­ple­ta, ou qua­se. Em ou­tros ela es­tá au­sen­te. Tal co­mo to­dos os ou­tros des­ta sé­rie, o pro­pó­si­to des­te es­cri­to não é em na­da aca­dê­mi­co. Ele ser­ve a es­ta­be­le­cer diá­lo­gos en­tre pes­so­as e seu uso é li­vre, is­to é, li­vre­men­te co-responsável. Ele po­de ser uti­li­za­do em di­fe­ren­tes si­tu­a­ções. Pode ser ci­ta­do no to­do ou em par­te. Pode ser in­cor­po­ra­do a ou­tros es­cri­tos, des­de que lem­bra­da a sua fon­te.
Quem quei­ra “en­trar no tex­to” se­ja pa­ra torná-lo me­lhor, ou pa­ra co-participar de­le es­tá tam­bém con­vi­da­do a tan­to. Seremos co-autores/as.Lembro que boa par­te de tu­do o que es­cre­vi co­mo li­vros es­tá co­lo­ca­do em LIVRO LIVRE, no si­te do Rosa dos Ventos. Lá es­tão qua­se to­dos os meus li­vros de an­tro­po­lo­gia, de edu­ca­ção e de li­te­ra­tu­ra que, li­vres de di­rei­tos edi­to­ri­ais, po­dem por igual se­rem li­vre­men­te aces­sa­dos, sal­vos, co­pi­a­dos, etc. No Blog A Partilha da Vida  vá­ri­os ou­tros es­cri­tos meus po­dem tam­bém ser li­vre­men­te aces­sa­dos. [Carlos Rodrigues Brandão]

respiro astrol 2

1. Podemos des­co­lo­ni­zar a edu­ca­ção da pe­da­go­gia e, mais ain­da, do pe­da­go­gis­mo isen­to de diá­lo­go com ou­tras ma­nei­ras de sen­tir, pen­sar e pra­ti­car a vo­ca­ção de ensinar- e- apren­der. Podemos ou­sar o não per­mi­tir que a edu­ca­ção se­ja pen­sa­da ape­nas co­mo al­go que exis­te en­tre a ciência-e-a-técnica. Podemos re­la­ti­vi­zar o seu te­or do­mi­nan­te de uma tar­dia e li­mi­tan­te es­co­lha cen­tra­da no didático-científico – aqui­lo que se re­sol­ve no “pro­sai­co”, lem­bra­do por Edgar Morin – em no­me de uma vo­ca­ção equi­li­bra­da­men­te tam­bém dialógico-poética. Ou mes­mo “poié­ti­ca”, co­mo em Humberto Maturana.Podemos apren­der a Poeitizar a edu­ca­ção e po­e­ti­zar a es­co­la.

2. Ousemos des-apressar o apren­der. Saibamos re­tar­dar o que-saber-para-fazer em no­me do como-viver-para-ser. Dar mais e me­lhor tem­po a len­tas e hu­ma­ni­za­das pro­gres­sões es­co­la­res, e abrir mais mo­men­tos ao poé­ti­co por opo­si­ção ao pro­sai­co; ao de­va­neio por opo­si­ção ao con­cei­tu­al (co­mo em Gaston Bachelard), ao amo­ro­sa­men­te di­a­ló­gi­co, por opo­si­ção ao egois­ti­ca­men­te mo­no­ló­gi­co, ao poié­ti­co = a cons­tru­ção da poesia-de-si-mesmo na pes­soa de ca­da aluna/o, por opo­si­ção ao prag­má­ti­co = a me­ra ins­tru­ção do in­di­ví­duo pa­ra pro­du­zir ape­nas… coi­sas.

“re­des­co­brir co­mo re­to­mar a au­la em que a fa­la de par­te a par­te cons­trói o seu pró­prio sa­ber, ao in­vés de reduzir-se a um re­pe­ti­ti­vo em­pi­lha­men­to de in­for­ma­ções pron­tas e não aber­ta à cri­a­ção do de­ba­te e da des­co­ber­ta do sa­bor do sa­ber no acon­te­cer do en­si­nar e apren­der”

3. Podemos re­cri­ar o di­rei­to ao im­pro­vi­so, ao im­pre­vi­sí­vel, ao cri­a­ti­vo, re­man­do con­tra o pré-estabelecido, o pre­vis­to, o pre­vi­sí­vel. Conspirar con­tra a me­ca­ni­za­ção do en­si­nar, co­mo aque­la que se es­ta­be­le­ce em ci­ma de pro­gra­mas de cur­so ri­gi­da­men­te pré-montados e em­pa­co­ta­dos. Saibamos re­to­mar as au­las e diá­lo­gos cri­a­dos a par­tir de ro­tei­ros flui­dos a se­rem cons­truí­dos no pró­prio mo­men­to da au­la ou da fa­la. Ousemos re­la­ti­vi­zar o pri­ma­do cres­cen­te das au­las data-show e apren­der a uti­li­zar cri­a­ti­va­men­te os apor­tes da in­for­má­ti­ca, em no­me de um sa­ber cri­a­ti­vo e ela­bo­ra­do no mo­men­to do ensinar-aprender. Um com-saber com ple­no di­rei­to ao im­pro­vi­so de par­te do pro­fes­sor e de alu­nos. Assim, po­de­re­mos re­des­co­brir co­mo re­to­mar a au­la em que a fa­la de par­te a par­te cons­trói o seu pró­prio sa­ber, ao in­vés de reduzir-se a um re­pe­ti­ti­vo em­pi­lha­men­to de in­for­ma­ções pron­tas e não aber­ta à cri­a­ção do de­ba­te e da des­co­ber­ta do sa­bor do sa­ber no acon­te­cer do en­si­nar e apren­der.

4. Tenhamos a co­ra­gem de abo­lir ou re­du­zir o quan­to for pos­sí­vel as com­pe­ti­ções e as con­cor­rên­ci­as. A es­co­la não é um es­tá­dio e nem a edu­ca­ção é uma olim­pía­da. Colocar mui­to em se­gun­do pla­no, ou mes­mo eli­mi­nar as com­pe­ti­ções e, so­bre­tu­do, as “ran­qui­ci­sa­ções”, em no­me de uma es­co­la de par­ti­lhas e de cons­tru­ções co­le­ti­vas, so­li­dá­ri­as e não com­pa­rá­veis em ter­mos de es­ca­las e hi­e­rar­qui­as. Saibamos re­la­ti­vi­zar a in­di­vi­du­a­li­za­ção com­pe­ti­ti­va, em fa­vor de uma in­di­vi­du­a­ção co­o­pe­ra­ti­va. Saibamos abo­lir ou re­du­zir as pre­mi­a­ções ex­clu­den­tes (nos pó­di­os sem­pre só ca­bem três), os “qua­dros de hon­ra”, os “pri­mei­ros co­lo­ca­dos” e o si­lên­cio a res­pei­to de “to­dos os ou­tros”. Quando se­rá que a es­co­la e a edu­ca­ção irão atri­buir va­lo­res e prê­mi­os pa­ra os mais so­li­dá­ri­os, os mais “abertos-ao-outro”, os mais co­o­pe­ra­ti­vos e ca­pa­zes de di­a­lo­gar em e en­tre equi­pes, em lu­gar dos so­li­tá­ri­os ob­ce­ca­dos por seu ex­clu­si­vo de­sem­pe­nho in­di­vi­du­al e por su­as me­da­lhas? Afinal, que­re­mos pro­du­zir homens-máquinas pa­ra os po­de­res do mer­ca­do, ou pes­so­as hu­ma­nas pa­ra a cons­tru­ção de uma so­ci­e­da­de ge­ne­ro­sa­men­te hu­ma­ni­za­da?

“A es­co­la não é um es­tá­dio e nem a edu­ca­ção é uma olim­pía­da”

5. Podemos re­pen­sar a pe­da­go­gia co­mo a ar­te de cri­ar, ge­rar, par­ti­lhar e fa­zer cir­cu­lar sa­be­res. Como o ter­ri­tó­rio do en­con­tro aber­to a de­sa­fi­ar pes­so­as e gru­pos de pes­so­as a apren­der e in­te­grar co­nhe­ci­men­tos, e de aco­lher in­for­ma­ções ape­nas de for­ma com­ple­men­tar e aces­só­ria à cons­tru­ção pes­so­al e co­le­ti­va de sa­be­res. Não es­que­ça­mos que apren­der é cri­ar sa­be­res junto-com-o-meu-outro, pa­ra de­pois in­te­ri­o­ri­zar a mi­nha par­te pes­so­al de um com-saber so­li­da­ri­a­men­te cons­truí­do. Retomar a tra­je­tó­ria que vai da in­for­ma­ção (o que se ad­qui­re e acu­mu­la ma­nu­al e ins­tru­men­tal­men­te sem re­fle­xão e par­ti­lha) ao co­nhe­ci­men­to (aqui­lo que in­te­ri­o­ri­za atra­vés de diá­lo­gos re­fle­xi­vos e crí­ti­cos com ou­tros) e che­ga fi­nal­men­te ao sa­ber (aqui­lo que se cria ape­nas em si­tu­a­ções de par­ti­lha e que flui en­tre to­dos, sem ser uma pos­se de nin­guém).

6. Portanto, ou­se­mos re-centrar o pro­ces­so do ensino-aprendizagem no “acon­te­cer do apren­der”, recolocá-lo no in­te­ri­or da vi­da de equi­pes e na ex­pe­ri­ên­cia pe­da­gó­gi­ca do criar-entre-nós. Transformar a sala-de-aulas e a turma-de alu­nos em uma co­mu­ni­da­de apren­den­te. Uma pe­que­na e vi­va co­mu­ni­da­de cen­tra­da no tra­ba­lho da pessoa-com-os-outros, e não no es­for­ço egoís­ta do indivíduo-contra-os-outros, à mar­gem da equi­pe, da tur­ma, da pe­que­na e ati­va co­mu­ni­da­de que sa­be o que apren­de… e que apren­de o que cons­trói.

7. Podemos re-vivenciar a ex­pe­ri­ên­cia do apren­der co­mo um tra­ba­lho re­a­li­za­do tam­bém so­bre a re­mi­nis­cên­cia, so­bre a lem­bran­ça do vi­vo e do vi­vi­do, so­bre a me­mó­ria do par­ti­lha­do em in­te­ra­ção com o que es­tá acon­te­cen­do aqui-e-agora. Saibamos tra­ba­lhar pa­ra que o fo­co do ensinar-aprender par­ta não ape­nas de um concreto-abstrato do­mi­na­do pe­lo pro­fes­sor e su­bor­di­na­do à ro­ti­na de um pro­gra­ma”. Mas al­go vi­vo e re­me­mo­ra­do em e en­tre si­tu­a­ções pes­so­ais e in­te­ra­ti­vas vi­vi­das e pen­sa­das pe­los alu­nos des­de a ex­pe­ri­ên­cia de momentos-foco de vi­das co­ti­di­a­nas. Se is­to tem si­do ex­pe­ri­men­ta­do há mui­tos anos com te­ra­pi­as que pre­ten­dem par­tir do e atin­gir o âma­go da vi­da in­te­ri­or de pes­so­as, por­que não fa­zer o mes­mo com a edu­ca­ção? Pois es­ta­mos pen­san­do aqui em uma edu­ca­ção que so­men­te po­de pre­ten­der ser in­te­gral e trans­dis­ci­pli­nar, se to­mar co­mo seu pon­to de par­ti­da o nú­cleo pessoal-e-dialogável de ca­da um e de to­dos os seus par­ti­ci­pan­tes. Mas, pa­ra tan­to, é pre­ci­so re­lem­brar que qual­quer que se­ja a pessoa-aluno que te­nho di­an­te de mim, es­tou fren­te a uma fon­te pes­so­al, úni­ca, sa­gra­da e ir­re­pe­tí­vel de su­as pró­pri­as vi­vên­ci­as, ex­pe­ri­ên­ci­as, sen­ti­dos, sen­si­bi­li­da­des e sa­be­res. Compreendido de den­tro pa­ra fo­ra e a par­tir de si mes­mo, o “pi­or de meus alu­nos” é um sábio-de-si-mesmo . 

“Estamos pen­san­do aqui em uma edu­ca­ção que so­men­te po­de pre­ten­der ser in­te­gral e trans­dis­ci­pli­nar, se to­mar co­mo seu pon­to de par­ti­da o nú­cleo pessoal-e-dialogável de ca­da um e de to­dos os seus par­ti­ci­pan­tes”

8. Sem te­mor al­gum sai­ba­mos re­co­lo­car o fo­co da edu­ca­ção na­qui­lo que até a al­gum tem­po atrás cos­tu­má­va­mos cha­mar de “es­pi­ri­tu­a­li­da­de”, de “vi­da in­te­ri­or”; de “bus­ca pes­so­al e in­te­ra­ti­va do bem, do be­lo e do ver­da­dei­ro. Por que se­rá que es­tes pro­fun­dos e an­ces­trais va­lo­res da tra­je­tó­ria da hu­ma­ni­da­de no Planeta Terra, pa­re­cem ho­je al­go “do pas­sa­do” em tem­pos em que a efi­cá­cia do mo­men­to, a su­per­fi­ci­a­li­da­de com­pe­ten­te e a des­car­ta­bi­li­da­de de tu­do e de to­dos pa­re­ce a ca­da mo­men­to co­lo­ni­zar mais es­pa­ços de nos­sa pró­pria… vi­da in­te­ri­or?

9. Saibamos re­la­ti­vi­zar mui­to a ten­dên­cia cres­cen­te a fun­ci­o­na­li­zar a edu­ca­ção pa­ra ca­pa­ci­tar o competente-e-produtivo, em no­me de nos­sa vo­ca­ção de edu­ca­do­res, cen­tra­da no re-humanizar a edu­ca­ção pa­ra for­mar o consciente-criativo. Ousemos re­co­lo­car no fo­co da edu­ca­ção o diá­lo­go cons­tan­te da co­mu­ni­da­de apren­den­te com não ape­nas a in­for­ma­ção útil e dis­po­ní­vel – co­mo o “in­glês fun­ci­o­nal”, pa­ra apren­der a fa­lar com má­qui­nas e com em­pre­sá­ri­os – em no­me de um sa­ber trans­bor­dan­te e de­sa­fi­a­dor – co­mo apren­der in­glês pa­ra ler Shakespeare e Robert Frost. Podemos de­di­car me­nos tem­po a li­dar com frag­men­tos de poesia-instrumental pa­ra en­si­nar gramática-funcional a es­tu­dan­tes apres­sa­dos, e de­di­car mais tempo-vivo-na- es­co­la pa­ra tra­ba­lhar gramáticas-profundas e fi­lo­so­fi­as das idéi­as, pa­ra cri­ar lei­to­res aten­tos e fer­vo­ro­sos de Cecília Meireles, de Clarice Lispector, de Marilena Chaui e de João Guimarães Rosa.

10. Aprendamos a re­a­li­zar de fa­to, e não ape­nas nas te­o­ri­as dos sim­pó­si­os e con­gres­sos so­bre trans­dis­ci­pli­na­ri­da­de, in­te­ra­ções e in­te­gra­ções de igual pa­ra igual en­tre a ar­te, a fi­lo­so­fia, a es­pi­ri­tu­a­li­da­de e a ci­ên­cia. Saibamos cri­ar cur­rí­cu­los em que a mú­si­ca re­co­bre o seu lu­gar na sa­la de au­la e di­a­lo­gue por igual com a ma­te­má­ti­ca; a dan­ça dan­ce com a ge­o­gra­fia e am­bas cri­em ter­ri­tó­ri­os de vi­da e, não, de in­for­ma­ções so­bre a vi­da. Deixar que a po­e­sia se­ja um dos mo­ti­vos de se en­si­nar “lín­gua pá­tria”. Se ne­ces­sá­rio, po­de­mos apren­der com Leonardo da Vinci, Gaston Bachelard, Roland Barthes, Antônio Cândido, Heitor Villa-Lobos, que a ar­te não é um sa­ber oci­o­so des­ti­na­do às ho­ras de re­creio, ou de ati­vi­da­des para-escolares. Ela é um ou­tro sa­ber. Ela po­de­rá vir-a-ser um sa­ber tão hu­ma­na­men­te pro­fun­do quan­to o co­nhe­ci­men­to das ci­ên­ci­as. Ciências que quan­to mais se fa­zem den­sas e de­sa­fi­a­do­ras, tan­to mais se apro­xi­mam do mis­té­rio, da fi­lo­so­fia e da ar­te.

“Deixar que a po­e­sia se­ja um dos mo­ti­vos de se en­si­nar ‘lín­gua pá­tria'”

11. Ousemos le­var as integrações-interações en­tre sa­be­res pa­ra além do me­ra­men­te “trans­dis­ci­pli­nar”. Assim abrir-se ao to­do e ao com­ple­xo da “sa­be­do­ria do mun­do”. Levar a sé­rio a pro­pos­ta (sem­pre in­ci­pi­en­te, sem­pre aos pe­da­ços) de uma edu­ca­ção mul­ti­cul­tu­ra­lis­ta a um pon­to li­mi­te. A um lu­gar de efe­ti­va fronteira-de-diálogo en­tre os saberes-de-ciência (oci­den­tal e aca­dê­mi­ca) e os saberes-outros. Todos os ou­tros sa­be­res. Podemos re­a­li­zar is­to a par­tir do pres­su­pos­to de qual­quer ou­tro sa­ber vin­do de qual­quer ou­tra cul­tu­ra é não tan­to uma “for­ma cu­ri­o­sa e in­te­res­san­te de pen­sar e vi­ver” ele é em-si-mesmo e para-nós uma ou­tra fon­te ori­gi­nal, in­te­ra­ti­va e com­ple­xa de li­ção do mun­do e da vi­da. Outros sa­be­res, ou­tras sen­si­bi­li­da­des, ou­tras cri­a­ções cul­tu­ais de com­pre­en­são do hu­ma­no, da vi­da e do mun­do em que a vi­ve­mos, ape­nas di­fe­ren­tes, mas em na­da de­si­gual­men­te “me­no­res” do que o que cul­tu­ras eru­di­tas do Ocidente pro­du­zi­ram. Os sa­be­res de Cambridge e Nova York ame­a­çam mais a nos­sa fe­li­ci­da­de e a nos­sa so­bre­vi­vên­cia do que o dos Aymaras e os Guarani.

12. A par­tir do apor­te de sa­be­res de tra­di­ções “de lon­ge”, apren­da­mos a aqui­e­tar um tan­to mais a edu­ca­ção, a se­re­nar a pe­da­go­gia e a pau­sar a di­dá­ti­ca. Talvez o agi­to das sa­las de au­la e a vi­o­lên­cia da es­co­las di­mi­nua, com a in­clu­são de mo­men­tos de “na­da fa­zer” na es­co­la. Momentos de cri­a­ti­va se­re­ni­da­de em que é da­do a tu­do e a to­dos o di­rei­to de estar-na-sua, se­re­na­men­te me­di­tan­do ou apren­den­do com au­las de Tai-Chi. Aulas em que nin­guém com­pe­te com nin­guém, mas ca­da uma se har­mo­ni­za em con­jun­to com ou­tros. Trazer pa­ra o cen­tro da es­co­la prá­ti­cas des­ti­na­das a tranqüi­li­zar o es­pí­ri­to e a se­re­nar o cor­po de den­tro pa­ra fo­ra. Será que boa par­te do que tor­na nos­sas alu­nas “agres­si­vas” e as nos­sas es­co­las “vi­o­len­tas”, não vi­rá do es­tar­mos tra­zen­do pa­ra den­tro da es­co­la a mes­ma ló­gi­ca, a mes­ma pres­sa, a mes­ma com­pe­ti­ti­vi­da­de exaus­ti­va, a mes­ma éti­ca (ou pseudo-ética) e a mes­ma sen­si­bi­li­da­de do competitivo-competente de um mundo-de-mercado que no co­lo­ni­za e que dia-a-dia ame­a­ça co­lo­ni­zar to­das as es­fe­ras en­tre a so­ci­e­da­de e a edu­ca­ção, en­tre a edu­ca­ção e a es­co­la, en­tre a es­co­la e ca­da uma de su­as ha­bi­tan­tes? Estejamos aten­tos a não trans­for­mar uma edu­ca­ção in­te­gral, al­go que ao in­vés de in­te­grar pes­so­as cri­a­ti­vas, de­sin­te­gre ain­da mais in­di­ví­du­os agi­ta­dos atra­vés de um acú­mu­lo “em tem­po in­te­gral” de ati­vi­da­des su­ces­si­vas, apres­sa­das e com­pe­ti­ti­vas.

“Talvez o agi­to das sa­las de au­la e a vi­o­lên­cia da es­co­las di­mi­nua, com a in­clu­são de mo­men­tos de “na­da fa­zer” na es­co­la”

13.  No seu sen­ti­do mais ra­di­cal­men­te hu­ma­no e, por is­to mes­mo, mais trans­for­ma­dor, sai­ba­mos re­co­lo­car a po­lí­ti­ca no cen­tro do que se vi­ve na es­co­la. Em pri­mei­ro lu­gar, po­lí­ti­ca com o sen­ti­do de cui­da­do da “po­lis”. Quando fa­la­mos em edu­ca­ção ci­da­dã, ela é is­to: o apren­di­za­do vi­vi­do e vi­ven­ci­a­do da co-responsabilidade pe­la ges­tão co­le­ti­va e am­pla­men­te par­ti­ci­pa­ti­va nos des­ti­nos de gru­pos hu­ma­nos lo­cais, de co­mu­ni­da­des, da ci­da­de, da na­ção e de to­do o mun­do.
Em se­gun­do lu­gar, po­lí­ti­ca co­mo par­ti­lha do pro­ces­so de trans­for­mar pes­so­as – o “cons­ci­en­ti­zar”, em Paulo Freire – pa­ra cri­ar, tam­bém a par­tir da es­co­la e des­de a in­fân­cia, se­res hu­ma­nos com um sen­ti­men­to e um sa­ber de li­ber­da­de e de au­to­no­mia, lo­go, de par­ti­lha, par­ti­ci­pa­ção e co-gestão ati­va e so­li­dá­ria de pro­ces­sos de trans­for­ma­ção de nos­sos mun­dos de vi­da e de des­ti­no.
Lembremos: a edu­ca­ção não mu­da o mun­do; a edu­ca­ção mu­da pes­so­as; pes­so­as mu­dam o mun­do.

14.  Assim, re­to­me­mos a ideia do des­ti­nar uma edu­ca­ção hu­ma­nis­ta e ra­di­cal­men­te in­te­gral, à vo­ca­ção de for­mar su­jei­tos conscientes-cooperativos pa­ra a trans­for­ma­ção hu­ma­ni­za­do­ra da so­ci­e­da­de e, não, su­jei­tos competentes-competitivos pa­ra a re­pro­du­ção da ló­gi­ca e do po­der do mer­ca­do do ca­pi­tal.
Uma edu­ca­ção pa­ra além do me­ra­men­te “in­clu­si­vo”. Uma edu­ca­ção vol­ta­da com pri­o­ri­da­de ain­da e sem­pre (ou até quan­do for pre­ci­so) ao ser­vi­ço aos “de­ser­da­dos da Terra e da ter­ra”. Uma edu­ca­ção es­qui­va aos po­de­ro­sos e vol­ta­da aos po­bres, aos ex­cluí­dos, ao po­vo e nos­sos po­vos, en­fim. que o nos­so la­bor co­mo edu­ca­dor es­te­ja pre­fe­ren­ci­al­men­te di­ri­gi­do.

15. Aprendamos a fa­zer re­tor­nar a es­co­la e a edu­ca­ção a prá­ti­cas do co­ti­di­a­no que em su­as di­fe­ren­tes es­ca­las re­mam con­tra os sa­be­res, va­lo­res e po­de­res do ca­pi­ta­lis­mo e do me­ro mun­do dos ne­gó­ci­os. Associar a edu­ca­ção in­te­gral a pro­ces­sos con­du­zi­dos por mo­vi­men­tos so­ci­ais e po­pu­la­res de fren­tes de lu­ta con­tra a de­si­gual­da­de, a ex­clu­são, a acu­mu­la­ção de ri­que­zas, à ex­plo­ra­ção do tra­ba­lho e da pes­soa que tra­ba­lha.
Ousemos abrir a es­co­la, pri­mei­ro pa­ra os seus “territórios-do-entorno”, aqui­lo que gos­to de cha­mar de co­mu­ni­da­de de aco­lhi­da, o lu­gar mais socio-cultural do que me­ra­men­te ge­o­grá­fi­co em que a es­co­la es­tá in­se­ri­da. Depois, sai­ba­mos aco­lher em seu in­te­ri­or e di­a­lo­gar com an­ti­gas em no­vas mo­da­li­da­de de viver-a-vida co­mo a eco­no­mia so­li­dá­ria, a sim­pli­ci­da­de vo­lun­tá­ria, as fren­tes po­pu­la­res de ação so­ci­al.

16. Saibamos ou­sar dar sal­tos e sal­tar vo­os pa­ra além-de. E sai­ba­mos co­me­çar es­ta ou­sa­dia poético-pedagógica por des­ves­tir uma edu­ca­ção in­te­gral das más­ca­ras em que ela apa­re­ce co­mo “es­co­las em que os alu­nos fi­cam o dia in­tei­ro den­tro de­las”. Ou co­mo al­go que ape­nas de le­ve hu­ma­ni­za e in­te­gra va­lo­res e fa­to­res de uma edu­ca­ção do­mi­na­da pe­la ló­gi­ca do mun­do dos ne­gó­ci­os e des­ti­na­da a re­pro­du­zir e re­for­çar o po­der do ca­pi­ta­lis­mo.
Desde as prá­ti­cas do co­ti­di­a­no, pen­sar os ter­mos con­cre­tos e a prá­ti­ca de edu­ca­ções li­ber­tá­ri­as, de uma edu­ca­ção em bus­ca de cons­tru­ção de si mes­ma co­mo lu­gar de cri­a­ção de for­mas no­vas e re­no­va­do­ras de so­li­da­ri­e­da­de in­te­ra­ti­va e de um so­ci­a­lis­mo de fa­to hu­ma­nis­ta e hu­ma­ni­za­dor.

respiro astrol 1

17.  Saibamos re­to­mar a edu­ca­ção a uma vo­ca­ção de fa­to mais cul­tu­ral­men­te “na­tu­ral”. Em um tem­po em que as te­las e as co­ne­xões ele­trô­ni­cas pa­re­cem des­lo­car a re­a­li­da­de do mun­do da vi­da do vi­ven­ci­al pa­ra o vir­tu­al, ou­se­mos apren­der a re­to­mar os ca­mi­nhos de ge­nuí­nas experiências-de-partilha-da-natureza. Talvez te­nha che­ga­do o mo­men­to de pen­sar­mos – en­tre tan­tas teó­ri­cas ino­va­ções di­dá­ti­cas – se a es­co­la não de­ve­ria voltar-se mais a ser pa­re­ci­da com um “acam­pa­men­to de es­co­tei­ros” do que com um “la­bo­ra­tó­rio de in­ter­nau­tas”.

18. Enfim lem­bre­mos com Sartre que “uma coi­sa é o que fi­ze­ram de nós. E ou­tra coi­sa é o que fa­ze­mos do que fi­ze­ram de nós…“. Partir da ideia de que na ver­da­de, se qui­ser­mos, so­mos e se­re­mos nós e os nos­sos educandos-herdeiros aque­les a quem ca­be a con­ti­nui­da­de e a den­si­da­de do tra­ba­lho de trans­for­mar­mos as nos­sas vi­das, os nos­sos des­ti­nos e os mun­dos co­ti­di­a­nos e de his­tó­ria, em que par­ti­lha­mos nos­sas vi­das e des­ti­nos.

19. Lembremos, en­fim, que so­men­te ha­ve­rá “um ou­tro mun­do pos­sí­vel”, quan­do, pas­so a pas­so, exis­tir em nós e en­tre nós, um ou­tro ser hu­ma­no pos­sí­vel. E es­te ou­tro ser hu­ma­no mais hu­ma­no e hu­ma­ni­za­dor so­men­te exis­ti­rá quan­do sou­ber­mos cri­ar uma ou­tra edu­ca­ção pos­sí­vel, po­e­ti­ca­men­te hu­ma­na e hu­ma­na­men­te in­te­gral. E to­dos es­tes “pos­sí­veis” de­pen­dem de nós mes­mos e de nós mes­mas, mui­to mais do que nós próprios/as ima­gi­na­mos.

Começado na ci­da­de de Buritizeiro na bei­ra do Rio São Francisco em um de­zem­bro de gran­des chu­vas em 2011.
Revisto du­ran­te o FORUM SOCIAL TEMÁTICO em Porto Alegre, em ja­nei­ro en­tre ca­lor e chu­va.
Revisto de no­vo du­ran­te o IV Seminário Nacional de Educação Integral: con­tri­bui­ções do Programa Mais Educação, re­a­li­za­do em Brasília, en­tre 29 e 31 de maio de 2012, com noi­te de chu­va e dia de sol.
Revisão pa­ra es­ta edi­ção do Astrolábio por Claudio Barría Mancilla, agos­to de 2015.