Letras e Literatura

reflexões e relatos sobre promoção do livro e leitura

Andanças Criativas

Os caminhos essenciais da escrita passam pela leitura do mundo
por Domingo Gonzalez Cruz

Da edição 07 - Tear em Casa

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1 – Imagens e pa­la­vras.

As his­tó­ri­as não con­ta­das cons­ti­tu­em a es­sên­cia do ho­mem cri­a­dor de qual­quer ti­po de pro­du­ção tex­tu­al. A lei­tu­ra do mun­do des­per­ta ima­gens vi­a­jan­tes den­tro do ser hu­ma­no. A pa­la­vra ar­ti­cu­la­da vem do si­lên­cio e se faz cor­po vi­vo dos sa­be­res hu­ma­nos.

Às ve­zes, um jo­vem diz:

– Sou pés­si­mo es­cre­ven­do. O que vo­cê me re­co­men­da? Conhece uma boa gra­má­ti­ca?

Na ver­da­de, se ele não con­se­guiu ler o que não es­ta­va en­ten­den­do até os dez anos de ida­de, de­pois, se­rá mais di­fí­cil. Talvez, um pro­fes­sor de li­te­ra­tu­ra pos­sa ajudá-lo na au­to­es­ti­ma aba­la­da. Eu dis­se, tal­vez.

A lei­tu­ra do mun­do se apren­de len­do, não só nos li­vros. O con­tex­to cul­tu­ral é im­por­tan­te na for­ma­ção do lei­tor. A in­te­li­gên­cia lin­guís­ti­ca (Howard Gardner) po­de­rá su­pe­rar es­sa di­fi­cul­da­de. Mas não é to­do dia que nas­ce um Machado de Assis.

Me apro­prio das pa­la­vras mul­ti­fa­ce­ta­das pa­ra associá-las às ver­da­des que elas es­con­dem. Se me en­can­to, pos­so sur­pre­en­der pa­la­vras, sem me­do de er­rar. Quando con­to uma his­tó­ria, leio as ima­gens que as pa­la­vras des­sa his­tó­ria me ofe­re­cem. E a pa­la­vra vi­va é o cen­tro trans­mis­sor dos co­nhe­ci­men­tos, sen­ti­men­tos e emo­ções hu­ma­nas.

Ima­gens são mais ime­di­a­tas nos de­se­nhos, nas pin­tu­ras das cri­an­ças (Augusto Rodrigues). O en­ca­de­a­men­to ex­pres­si­vo das pa­la­vras é pos­te­ri­or às sim­bo­lo­gi­as das ar­tes plás­ti­cas, en­quan­to lin­gua­gem ex­pres­si­va, na pri­mei­ra in­fân­cia (pa­ra in­te­li­gên­ci­as den­tro da mé­dia).

As plas­ti­ci­da­des ima­gís­ti­cas das pa­la­vras ela­bo­ram es­tru­tu­ras sig­ni­fi­ca­ti­vas e vi­su­ais com­ple­xas, cri­an­do ou­tras se­cun­dá­ri­as, ter­ciá­ri­as, etc. Exercitar es­sa ha­bi­li­da­de é um gran­de de­sa­fio no uni­ver­so lin­guís­ti­co. Algumas cri­an­ças e ado­les­cen­tes con­se­guem com gran­de fa­ci­li­da­de, mas o que acon­te­ce? Elas têm a in­te­li­gên­cia lin­guís­ti­ca mui­to avan­ça­da pa­ra a ida­de cro­no­ló­gi­ca. Superdotação? É uma pos­si­bi­li­da­de. Equacionam as pa­la­vras com al­to po­der de cri­a­ti­vi­da­de. O que se po­de de­no­mi­nar de al­ta ha­bi­li­da­de.

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Arthur Rimbaud pa­rou de es­cre­ver aos 20 anos de ida­de. Um ca­so de ex­ce­lên­cia, ra­ro, em ma­té­ria de po­e­sia. E mo­di­fi­cou as es­tru­tu­ras li­te­rá­ri­as de sua épo­ca, quan­do es­ta­va com 16, 18 anos de ida­de. Já sei que is­so cor­res­pon­de à pro­cu­ra de uma agu­lha no pa­lhei­ro. Mas ta­len­tos de­vem ser es­ti­mu­la­dos. Eles ul­tra­pas­sam seu tem­po exis­ten­ci­al. Se o es­cri­tor tem o que di­zer, os es­tí­mu­los se­rão es­sen­ci­ais.

Se con­to uma his­tó­ria ou es­cre­vo um po­e­ma com pa­la­vras in­co­muns, is­so agi­ta o cé­re­bro do lei­tor, pois a se­mân­ti­ca com­ple­xa ace­le­ra lem­bran­ças au­to­bi­o­grá­fi­cas, que re­di­men­si­o­nam sen­ti­men­tos, emo­ções e vi­vên­ci­as. O que o ar­tis­ta da pa­la­vra diz, e do jei­to que diz, agi­ta no­vas lei­tu­ras.

Os te­mas que in­qui­e­ta­ram Jung, so­bre o des­ti­no do ho­mem na Terra, são abor­da­dos na li­te­ra­tu­ra uni­ver­sal e tam­bém na infanto-juvenil. Quem sin­te­ti­za as di­men­sões des­se des­ti­no hu­ma­no na me­mó­ria do pla­ne­ta é o arqué­ti­po do he­rói:

Incorpora as mais po­de­ro­sas as­pi­ra­ções e re­ve­la a ma­nei­ra pe­la qual elas são ide­al­men­te com­pre­en­di­das e re­a­li­za­das. Representa a von­ta­de e a ca­pa­ci­da­de de pro­cu­rar e su­por­tar re­pe­ti­das trans­for­ma­ções em bus­ca da to­ta­li­da­de ou de sig­ni­fi­ca­ção. Implica não só a ca­pa­ci­da­de de re­sis­tir, mas tam­bém a de sus­ten­tar cons­ci­en­te­men­te a tre­men­da ten­são en­tre os opos­tos. (Grinberg, 2003)

Ele re­si­de nos li­vros da bi­bli­o­te­ca in­fan­til e ju­ve­nil. A pai­xão de ler fa­rá com que o lei­tor se ape­gue as aven­tu­ras en­fren­ta­das pe­lo he­rói, o que po­de­rá ajudá-lo a re­ver va­lo­res, ace­le­ran­do seu po­ten­ci­al cri­a­ti­vo:

Do pon­to de vis­ta psi­co­ló­gi­co, a ima­gem do he­rói de­ve ser con­si­de­ra­da idên­ti­ca ao ego pro­pri­a­men­te di­to. Trata-se, an­tes, do meio sim­bó­li­co pe­lo qual o ego se se­pa­ra dos arqué­ti­pos evo­ca­dos pe­las ima­gens dos pais na sua pri­mei­ra in­fân­cia”. (Henderson, 1977.)

O pre­pa­ro con­tí­nuo de um nar­ra­dor, se­ja pro­sa­dor ou po­e­ta, ca­re­ce de exer­cí­ci­os cons­tan­tes, nas ofi­ci­nas li­te­rá­ri­as des­ti­na­das à es­cri­ta cri­a­ti­va.

As prá­ti­cas de es­cri­ta cri­a­ti­va des­blo­quei­am di­fi­cul­da­des ex­pres­si­vas.

A in­te­li­gên­cia lin­guís­ti­ca exi­ge mui­ta cri­a­ti­vi­da­de e ima­gi­na­ção, sin­to­ni­as cul­tu­rais com­ple­xas tam­bém. O cor­te lin­guís­ti­co é o ápi­ce des­sa in­te­li­gên­cia, bem re­pre­sen­ta­da por po­e­tas, ora­do­res e ad­vo­ga­dos.

Os po­e­tas re­no­vam a lín­gua, a li­te­ra­tu­ra, for­man­do vi­sões de mun­do ino­va­do­ras.

Os ora­do­res (po­lí­ti­cos) cri­am na nar­ra­ti­va oral, ar­gu­men­ta­ções que não per­mi­tem in­de­ci­sões no que di­zem, exer­ci­tam dú­vi­das com ve­e­mên­cia, pa­ra atin­gir ver­da­des ir­re­ver­sí­veis.

Os ad­vo­ga­dos uti­li­zam a re­tó­ri­ca pa­ra ques­ti­o­nar acu­sa­ções e di­rei­tos evi­tan­do in­jus­ti­ças.

Fazer e Sustentar-se

  1. Trajeto Tearteiro.

Come­cei mui­to ce­do a li­dar com acer­vos de bi­bli­o­te­cas e ati­vi­da­des cri­a­ti­vas. Fui pa­rar nos po­rões da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), aos 18 anos de ida­de. Enquanto lim­pa­va li­vros, lia os dis­cur­sos que Rui Barbosa pro­fe­riu, de­ba­tes po­lí­ti­cos e tex­tos li­te­rá­ri­os (obras com­ple­tas). No de­cor­rer de al­gu­mas dé­ca­das, aca­bei es­cre­ven­do so­bre a vi­da e a obra des­se gran­de bra­si­lei­ro: “A Casa de Rui cheia de en­can­tos” (po­e­mas), e “Assombração na Casa de Rui Barbosa” (ro­man­ce ju­ve­nil) em par­ce­ria com Eni Valentin (tra­ba­lhou no se­tor que edi­ta as obras de Rui Barbosa).

Estu­dei bi­bli­o­te­co­no­mia, me es­pe­ci­a­li­zei em Documentação Científica, aju­dei a clas­si­fi­car os 35.000 vo­lu­mes da bi­bli­o­te­ca par­ti­cu­lar de Rui Barbosa, mas meu so­nho prin­ci­pal es­ta­va vol­ta­do pa­ra o que o pa­tro­no da ca­sa apre­ci­a­va mui­to. Ler pa­ra cri­an­ças. Ele con­ta­va his­tó­ri­as pa­ra os ne­tos.

Eu so­nha­va com a cri­a­ção de uma bi­bli­o­te­ca vi­va pa­ra as cri­an­ças do bair­ro de Botafogo (RJ). E o so­nho se tor­nou re­a­li­da­de. A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil cri­ou a Biblioteca Infantil Maria Mazzetti (BIMM) em par­ce­ria com a Fundação Casa de Rui Barbosa (1979).

Can­sei de ver a es­cri­to­ra Marina Quintanilha cir­cu­lan­do pe­los jar­dins da Casa pa­ra con­tar his­tó­ri­as “de li­vro” e de “bo­ca”. Depois, fui de­sig­na­do pa­ra dar con­ti­nui­da­de às ati­vi­da­des cri­a­ti­vas de es­tí­mu­lo à lei­tu­ra. E fui me es­pe­ci­a­li­zar na Escolinha de Arte do Brasil fun­da­da por Augusto Rodrigues. Lecionei Leitura e Criação de Texto, na Escolinha e es­cre­vi o li­vro “Recordações e Encantos da Rua Cosme Velho”. Augusto Rodrigues vi­rou per­so­na­gem: o Imperador do Largo do Boticário.

Sur­giu uma per­gun­ta. Quem foi Maria Mazzetti? Por sor­te, Gilda Meirelles, po­e­ta e edu­ca­do­ra, le­va­va seus fi­lhos até a BIMM. Ela foi ami­ga de Maria Mazzetti.

Após lon­ga con­ver­sa fui à lu­ta. Entrevistei Aladyr Santos Lopes, Maria Clara Machado, Virgínia Valli, en­tre ou­tras pes­so­as que con­vi­ve­ram ou tra­ba­lha­ram com a edu­ca­do­ra in­can­sá­vel.

Essas an­dan­ças nos flu­xos da vi­da, me le­va­ram até o Tear – Núcleo de Atividades Criativas. E en­tre­vis­tei Denise Mendonça. Encantamento pu­ro. A Arte/Educação abria por­tas no­vi­da­dei­ras, e eu en­trei ex­pan­din­do mi­nha cri­a­ti­vi­da­de. Escrevi o li­vro “A his­tó­ria de Maria Mazzetti” (Edições Casa de Rui Barbosa).

Com Denise, apren­di mui­tas coi­sas e ela as­se­gu­ra que apren­deu com Maria Mazzetti. Que foi que eu apren­di no Tear? Vejamos:

Com Maria apren­di tan­tas coi­sas… uma de­las a to­da ho­ra es­tou res­ga­tan­do na mi­nha vi­da e cons­ti­tui uma das prin­ci­pais ra­zões de eu ter cri­a­do o Tear: o ato má­gi­co da des­co­ber­ta e da trans­for­ma­ção. Você co­mo men­tor de su­as pró­pri­as idei­as, atra­vés da lin­gua­gem poé­ti­ca, so­no­ra, plás­ti­ca, en­fim, pa­ra ter aces­so a seu pró­prio uni­ver­so ex­pres­si­vo e SER úni­co e SER in­tei­ro – a gran­de pos­si­bi­li­da­de que ca­da um de nós tem de ser, de fa­to, um ma­go.

Esta for­ma de con­du­zir o pen­sa­men­to e a vi­da es­tá mui­to pre­sen­te em sua po­e­sia ao li­dar com o non sen­se, o im­pre­vi­sí­vel e o ima­gi­ná­rio de ma­nei­ra ex­tra­or­di­ná­ria. E li­dan­do com o não-convencional, com a in­for­ma­li­da­de, amplia-se o sen­ti­do, a ma­gia”. (Cruz. 2004.)

E fui dar au­la den­tro do Tear, atu­an­do prin­ci­pal­men­te na bi­bli­o­te­ca in­fan­til, com ati­vi­da­des cri­a­ti­vas. Eu es­ta­va im­preg­na­do pe­los so­nhos re­a­lis­tas da bi­bli­o­te­cá­ria e es­cri­to­ra fran­ce­sa, Geneviève Patte. Percebi que a bi­bli­o­te­ca in­fan­til de­ve ser ALEGRE, con­tan­do pa­ra is­so, ca­da vez mais, com uma ofi­ci­na de cri­a­ção e re­cur­sos da in­for­má­ti­ca.

Ain­da lem­bro das reu­niões com a equi­pe do atu­al Instituto Tear. Reuniões de um gru­po fa­mi­li­ar al­ta­men­te pro­fis­si­o­nal, sem­pre pen­san­do em cons­truir um mun­do mais hu­ma­ni­za­do pa­ra cri­an­ças e ado­les­cen­tes.

Vi mui­tos me­ni­nos e me­ni­nas re­a­li­zan­do seus so­nhos, após saí­rem do Tear. O pro­ces­so afe­ti­vo des­sas pes­so­as é mui­to ri­co. São pro­fis­si­o­nais chei­os de idei­as cri­a­ti­vas. Coisas que eles apren­de­ram a se­me­ar nas ati­vi­da­des te­ar­tei­ras, na­que­les quin­tais e sa­las má­gi­cas.

A bi­bli­o­te­ca Infantil  guar­da­va li­vros, e tam­bém ou­tros ob­je­tos (do­cu­men­tos não grá­fi­cos). Exemplo: re­ló­gio an­ti­go, car­re­teis de li­nha, baú de fan­ta­si­as, bo­las de so­prar, lu­ne­tas, mãos da­das, más­ca­ras, ca­lei­dos­có­pio, efei­tos de luz e som­bra, gra­vu­ras, tin­tas, pa­nos co­lo­ri­dos, pri­mei­ras his­tó­ri­as, lá­gri­mas de fa­das, san­gue de Cleópatra apai­xo­na­da, plan­tas, etc.

A es­cri­to­ra Ana Maria Machado (Academia Brasileira de Letras) foi vi­si­tar o Tear. Entrou na bi­bli­o­te­ca in­fan­til e fi­cou ex­ta­si­a­da. De re­pen­te, pe­gou um do­cu­men­to não grá­fi­co e co­me­çou a in­ven­tar uma his­tó­ria de “bo­ca”. E pe­gou mais ou­tro pa­ra es­ti­car a his­tó­ria. E ou­tro… E ou­tro… Entrou do de­lí­rio do con­ta­dor de his­tó­ri­as, cri­an­do o êx­ta­se li­te­rá­rio.

Em ou­tra oca­sião, a bi­bli­o­te­ca ama­nhe­ceu tran­ca­da. As cri­an­ças ba­te­ram na por­ta. E se ou­viu al­guém fa­lan­do uma lín­gua es­tra­nha. Era um índio/bibliotecário. Ele abriu a por­ta pa­ra con­ver­sar so­bre seu acer­vo es­pe­ci­al: ar­co e fle­cha, uru­cum, pe­nas, ci­pós, etc.

Assim se­rá o Instituto Tear (Ponto de Cultura), quem sa­be, por mais 30 anos, com su­as ati­vi­da­des cri­a­ti­vas e so­nhos “maz­ze­ti­a­nos”, pa­ra de­sen­vol­ver Programas de edu­ca­ção am­bi­en­tal e Literatura, Círculo da Terra (Projeto de Arte/Educação am­bi­en­tal), Tear de Histórias (Projeto de Arte/Educação e Mediação de Leitura), en­tre ou­tras pro­du­ções edu­ca­ti­vas e cul­tu­rais.

A in­te­li­gên­cia na­tu­ra­lis­ta se­rá ca­da vez mais ne­ces­sá­ria pa­ra pre­ser­var nos­so pla­ne­ta. O ate­liê te­má­ti­co é mui­to ri­co, den­tro do Tear: se­res do quin­tal, ger­mi­na­ção, água, so­lo, ár­vo­res, di­ver­si­da­de.

Um dia de­se­jei sa­ber quem foi a es­cri­to­ra e edu­ca­do­ra Maria Mazzetti. Atendi o cha­ma­do e não me ar­re­pen­do. Passei a en­ten­der o que é edu­car pa­ra vi­ver pra­ze­ro­sa­men­te.

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Referências bi­bli­o­grá­fi­cas:

Henderson, Joseph L. Os mi­tos an­ti­gos e o ho­mem mo­der­no. In: Jung, Carl G. O ho­mem e seus sím­bo­los. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.

Gonzalez Cruz, Domingo. A bi­bli­o­te­ra­pia na edu­ca­ção. Rio de Janeiro, Universidade Cândido Mendes, 2004.

Grinberg, Luiz Paulo. Jung: o ho­mem cri­a­ti­vo. São Paulo: FTD, 2003.