Interfases

efervescências humanas na arte e na poesis

As cores quentes do Sudão

Fotografias capturam na África momentos de rara beleza na relação gente-natureza
por Claudio Barria - texto sobre fotos de Carol Beckwith e Angela Fisher [matéria mixada]

Da edição 01 - Arte e Cultura Popular
astrolábio nº 21 ano II set. 2017

A nossa longa herança colonial faz com que, via de regra, tenhamos uma visão sobre o mundo e sobre nós mesmos, pautada no ponto de vista que nossas instituições e meios de comunicação reproduzem: uma visão que poderíamos chamar de eurocêntrica, ou norte-cêntrica.

Assim, embora a história dos povos da Africa, por exemplo, estiver tão intimamente relacionada à nossa há já uns quinhentos anos, continuamos a olhar para a Africa com certo distanciamento e uma curiosidade que, por vezes, parece com a de um aventureiro francês do século XIX em busca do “exótico”.

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O problema desta herança é que ela reduz nossa percepção sobre a nossa própria história, limitando a nossa capacidade aprender com outras culturas, não tão atravessadas pela chamada modernidade.  Entretanto, e ainda bem, encontros sempre são possíveis. E nesse se ver há sempre a possibilidade de se re-conhecer.

O trabalho das fotógrafas Carol Beckwith e Angela Fisher, com a sua vivência de mais de 30 anos junto a comunidades de vida pastoril e agrária na Africa, propicia uma aproximação do olhar.  Seu trabalho, reconhecido e premiado, registra e – como todo registro relê – cerimônias, rituais e o cotidiano desses povos, o que fez com que as imagens captadas por elas refletissem uma longa e profunda relação de respeito com os costumes e com as pessoas, especialmente do povo Dinka, que habitam a região do Bahr al-Ghazal, Junqali e partes do Cordofão do Sul e do Alto Nilo, no atual Sudão e Sudão do Sul.

Confira parte do incrível trabalho da dupla:

Jovens Dinka gostam de brincar na água depois de pescar. Às vezes ao tentar caçar um peixe com a lança, lagartos ou mesmo pythons podem ser capturados acidentalmente.

Contemplar essas imagens sem conhecer de perto essas culturas, abre uma janela a universos de sentido outros, que nos complementam como humanos.  Observando os traços, a beleza e toda a riqueza da cultura de um povo tão distante e tão próximo ao mesmo tempo, um povo que preza pelo costume de seus ancestrais como forma de olhar para o futuro, nos toca profundamente.

A mulher Dinka tira a roupa ao entrar no rio, mas fica com suas jóias de contas. Seus cintos e pulseiras a acompanham ​​desde a puberdade, já os colares foram dados pelos seus maridos no momento do casamento.

O cortejo começa para homens Dinka aos 20 anos, e para as meninas aos 17 anos, um homem, no entanto, pode não se casar até os 30 anos de idade, pois ele deve aumentar o número suficiente de gado para pagar o preço da dote.

Carol Beckwith e Angela Fisher não são apenas fotógrafas, sua dedicação em preservar e semear a deslumbrante diversidade de cerimônias africanas, fizeram delas notáveis articuladoras da cultura.  Sua celebração das culturas ficará para sempre nos livros e catálogos que reúnem o esplendor da criatividade humana.
Nas suas próprias palavras

“Durante os 30 anos que passamos na África gravando cerimônias tradicionais, temos observado que a vida se baseia em um ciclo contínuo de dar e receber. Cada rito começa com um presente ou uma oferta: sobrevivência depende deste princípio básico.  Nós, também, temos olhado para as formas adequadas de retribuir o apoio que nos foi dado pelas comunidades em que moramos.”

Este aprendizado levou elas a criarem a Fundação African Ceremonies, voltada para o registro e preservação das tradições dessas comunidades e para o desenvolvimento de pequenos projetos locais, pautados na compreensão de pequenos projetos intimamente ligados às necessidades comunais e pessoais, na sua relação cotidiana com a terra, têm feito uma diferença significativa para o bem-estar das pessoas com as quais elas trabalhado.

 


Remixado a partir de: http://www.hypeness.com.br/2014/02/fotos-extraordinarias-da-tribo-dinkas-no-sudao (fotos e video)
Conheça mais sobre o trabalho da dupla de fotógrafas no site: http://www.africanceremonies.com/