Ecologias

perspectivas e entrelaços da Educação ambiental com Arte

Cantos de um Sertão Carioca

O “Ecomuseu do Sertão Carioca”, criado em 2009,  tem como preocupações principais a preservação do patrimônio cultural aliado ao desenvolvimento social. O sertão carioca e seus inventários são pensados nos escritos de Bernardo Marques.
por Bernardo Marques

Da edição 20 - Podem as Práticas Artísticas Construir Territórios?

Os con­cei­tos de ser­ta­ni­da­de e ru­ra­li­da­de es­tão in­ti­ma­men­te li­ga­dos. O ter­mo ser­tão apre­sen­ta ori­gem e sig­ni­fi­ca­dos di­ver­sos, e con­tro­ver­sos. Usaremos o con­cei­to que Luís da Câmara Cascudo (2002) re­pli­ca em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, que ser­tão é o mes­mo que in­te­ri­or, ter­mo mais li­ga­do a per­ma­nên­cia de cos­tu­mes e tra­di­ções. Não me­nos con­tra­di­tó­rio o con­cei­to de ru­ra­li­da­de po­de ser tra­zi­do à luz atra­vés da eti­mo­lo­gia da pa­la­vra ru­ral – do la­tim ru­ra­lis: cam­po, ter­ra agrí­co­la. Mesmo não ha­ven­do re­gis­tros ofi­ci­ais e de­vi­da­men­te re­co­nhe­ci­dos por par­te dos ór­gãos go­ver­na­men­tais – O cen­so de 2010 apon­ta o mu­ni­cí­pio sen­do 100% ur­ba­no, e o “Plano di­re­tor de de­sen­vol­vi­men­to Urbano e Sustentável do Município do Rio de Janeiro” des­con­si­de­ra as áre­as ru­rais – , há uma con­cen­tra­ção ru­ral na ci­da­de do Rio, que por in­te­res­ses so­ci­ais, ur­ba­nís­ti­cos e am­bi­en­tais é ne­gli­gen­ci­a­da. Estas ati­vi­da­des ru­rais es­tão con­cen­tra­das na zo­na oes­te da ci­da­de, re­gião que so­freu gran­des mu­dan­ças nos re­cen­tes anos por con­ta da ex­pan­são ur­ba­na e dos gran­des even­tos se­di­a­dos no mu­ni­cí­pio – Copa do Mundo FIFA de 2014 e os Jogos Olímpicos de Verão de 2016, es­se úl­ti­mo sen­do o que mais ge­rou im­pac­to na re­gião.

As ati­vi­da­des ru­rais des­ta re­gião encontram-se in­ven­ta­ri­a­das no li­vro “O Sertão Carioca”, do na­tu­ra­lis­ta Magalhães Corrêa, de 1936. As ati­vi­da­des e o po­vo – la­bo­ri­o­so, se­gun­do o au­tor – são re­tra­ta­dos e et­no­gra­fa­dos atra­vés de tex­tos e de­se­nhos à nan­quim em uma re­gião com­pre­en­di­da en­tre os ma­ci­ços da Tijuca e Camorim, de­no­mi­na­da pla­ní­cie de Jacarepaguá. O au­tor re­gis­tra pes­ca­do­res, ca­no­ei­ros, ta­man­quei­ros, ba­na­nei­ros, ces­tei­ros, olei­ros, en­tre ou­tros la­bo­res ar­te­sa­nais na re­gião. A obra, de do­mí­nio pú­bli­co, tem si­do ma­te­ri­al de gran­de va­lia pa­ra pes­qui­sa­do­res, re­vi­si­ta­da por aca­dê­mi­cos con­tem­po­râ­ne­os que, co­mo o pró­prio Corrêa, dis­cu­tem o pre­ser­va­ci­o­nis­mo na­tu­ral e cul­tu­ral. O li­vro é um do­cu­men­to que com­pro­va as prá­ti­cas se­cu­la­res e tra­di­ci­o­nais da agri­cul­tu­ra na re­gião, on­de ain­da ho­je há du­as co­mu­ni­da­des qui­lom­bo­las, re­co­nhe­ci­das pe­la Fundação Cultural Palmares. A obra de Magalhães Corrêa tem im­por­tân­cia no re­co­nhe­ci­men­to dos bens na­tu­rais e cul­tu­rais lo­cais e na de­nun­cia de ter­ri­tó­ri­os pe­ri­fé­ri­cos sem aces­so às de­man­das bá­si­cas. No que tan­ge a pes­qui­sa pa­tri­mo­ni­al, limita-se a um me­ro in­ven­tá­rio tec­no­crá­ti­co do pa­trimô­nio de um ter­ri­tó­rio, a par­tir de um olhar ro­mân­ti­co de um ar­tis­ta na­tu­ra­lis­ta.

Reconhecendo o va­lor e baseando-se no tra­ba­lho de Magalhães Corrêa, sur­ge em idos de 2009 uma ini­ci­a­ti­va de mo­ra­do­res da re­gião da zo­na oes­te: O “Ecomuseu do Sertão Carioca”. Criado em me­a­dos de 1970, o con­cei­to de Ecomuseu se de­ve à Nova Museologia, que tem co­mo pre­o­cu­pa­ções prin­ci­pais a pre­ser­va­ção do pa­trimô­nio cul­tu­ral ali­a­do ao de­sen­vol­vi­men­to so­ci­al. Baseia-se em três prin­cí­pi­os: um ter­ri­tó­rio mu­se­a­li­zá­vel, um pa­trimô­nio – na­tu­ral e cul­tu­ral (com­pos­to por bens ma­te­ri­ais e ima­te­ri­ais) – uma co­mu­ni­da­de par­ti­ci­pa­ti­va. Assim, gra­ças a es­se en­ten­di­men­to do que vem a ser um Ecomuseu, mem­bros de uma co­le­ti­vi­da­de tornam-se ato­res de for­mu­la­ção, exe­cu­ção e ma­nu­ten­ção do mu­seu, pen­san­do na di­men­são do de­sen­vol­vi­men­to so­ci­al e co­mu­ni­tá­rio do ter­ri­tó­rio. Eco, pre­fi­xo que se re­fe­re a uma no­ção de eco­lo­gia hu­ma­na e as re­la­ções di­nâ­mi­cas que o ho­mem e a so­ci­e­da­de es­ta­be­le­cem com a sua tra­di­ção, seu meio am­bi­en­te (Varine, 2000). Hugues de Varine, um dos ide­a­li­za­do­res do con­cei­to, acre­di­ta que o pa­trimô­nio é o DNA do ter­ri­tó­rio e da co­mu­ni­da­de (2013), po­rém mes­mo a co­mu­ni­da­de ten­do a “he­ran­ça ge­né­ti­ca” co­mum, há in­te­res­ses seg­men­ta­dos nos gru­pos que a in­te­gram, o que tor­na ár­duo o pro­ces­so par­ti­ci­pa­ti­vo no re­co­nhe­ci­men­to do pa­trimô­nio.

Folia de Reis do Ecomuseu do Sertão Carioca: uma ex­pe­ri­ên­cia par­ti­ci­pa­ti­va

Em 2016, o Ecomuseu do Sertão Carioca ini­cia uma ar­ti­cu­la­ção com gru­pos ar­tís­ti­cos e de pro­je­ção fol­cló­ri­ca da Zona Oeste do Rio pa­ra dar iní­cio à “Folia de Reis do Sertão Carioca”. O Ecomuseu ini­cia a apro­xi­ma­ção de gru­pos da re­gião com o in­tui­to de res­ga­tar me­mó­ri­as e (re)inventar tra­di­ções que ou­tro­ra exis­ti­am na re­gião. Segundo Cascia Frade (1997), em sua te­se de dou­to­ra­do em que ana­li­sa a trans­mis­são de co­nhe­ci­men­tos e ora­li­da­de nas Folias de Reis, a re­gião con­ta­va com al­gu­mas fo­li­as de des­ta­que, co­mo a Folia de Reis Estrela Guia, do mestre-folião Silva. Tratam-se de gru­pos de can­to­res e ins­tru­men­tis­tas, que cons­ti­tu­em um gru­po ri­tu­al do “ca­to­li­cis­mo po­pu­lar”, que re­a­li­zam pe­re­gri­na­ções (jor­na­das) às ca­sas de ami­gos e de­vo­tos, no pe­río­do na­ta­li­no. Carlos Brandão (1977) ana­li­sou as Folias à luz do pen­sa­men­to de Marcel Mauss e ob­ser­vou que es­sas ma­ni­fes­ta­ções po­pu­la­res es­ta­be­le­cem im­por­tan­tes la­ços so­ci­ais en­vol­ven­do seus par­ti­ci­pan­tes, sen­do um po­ten­te sis­te­ma de tro­cas sim­bó­li­cas. Assim sen­do, a ma­ni­fes­ta­ção po­pu­lar sur­ge co­mo uma pos­sí­vel fer­ra­men­ta de mo­bi­li­za­ção e ex­pe­ri­ên­cia par­ti­ci­pa­ti­va, já que atua co­mo um dis­pa­ra­dor de uma in­te­gra­ção co­mu­ni­tá­ria, con­cei­tos in­se­ri­dos na pro­pos­ta dos eco­mu­seus.

Sem pre­ten­sões de res­ga­te de tra­di­ções fol­cló­ri­cas, e sem vin­cu­lo com ins­ti­tui­ções re­li­gi­o­sas, com o ob­je­ti­vo de in­te­gra­ção co­mu­ni­tá­ria, sur­ge uma ma­ni­fes­ta­ção cul­tu­ral – “Os ele­men­tos da ‘tra­di­ção’ não só po­dem ser re­or­ga­ni­za­dos pa­ra se ar­ti­cu­lar a di­fe­ren­tes prá­ti­cas e po­si­ções e ad­qui­rir um no­vo sig­ni­fi­ca­do e re­le­vân­cia” (HALL, 2003 p.260). A par­tir da união do projeto/grupo Caipirando, de Jacarepaguá, que con­ta com mais de trin­ta mú­si­cos (en­tre ra­be­quei­ros, vi­o­lo­nis­tas e vi­o­lei­ros – vi­o­lei­ros em gran­de mai­o­ria), com o gru­po de brin­can­tes da Pedra Branca, de Vargem Grande sur­ge a pro­pos­ta de um pas­to­ril se­gui­do de fo­lia de reis em um ro­tei­ro de vi­si­ta­ção de ca­sas em Vargem Grande. Encontros men­sais fo­ram re­a­li­za­dos, on­de, além dos en­sai­os, eram dis­cu­ti­das ques­tões co­mu­ni­tá­ri­as e or­ga­ni­za­ci­o­nais, que con­tou com a pre­sen­ça da pro­fes­so­ra Cascia Frade que nos di­re­ci­o­nou na em­prei­ta­da de cons­tru­ção de um fol­gue­do que ti­ves­se mais a pre­ten­são de ser um aglu­ti­na­dor – uma es­pé­cie de de­vo­ção a uma pro­mes­sa de de­sen­vol­vi­men­to lo­cal e co­mu­ni­tá­rio – do que um gru­po de tra­di­ção. Os en­con­tros per­mi­ti­ram de­ba­tes, in­tro­du­ção aos con­cei­tos de pa­trimô­nio e in­ven­tá­rio e a com­par­ti­lha­men­tos de me­mó­ri­as – o pró­prio pa­lha­ço da fo­lia foi um an­ti­go brin­can­te de ou­tra fo­lia da re­gião, a Folia do Morrinho da Alegria no Pontal.
Os can­tos des­sa fo­lia, que te­ve sua jor­na­da ini­ci­a­da em 2017, têm po­ten­ci­al e in­tui­to de eco­ar no mí­ni­mo por mais se­te anos, mas tem tam­bém o in­te­res­se de pro­mo­ver uma re­la­ção de re­co­nhe­ci­men­to do pa­trimô­nio, e su­as res­so­nân­ci­as, pe­los pró­pri­os vi­ven­tes des­te ter­ri­tó­rio. Como ci­ta­da na mú­si­ca de Ivan Lins e Vitor Martins, e can­ta­da pe­la Folia de Reis do Sertão Carioca, a mú­si­ca Bandeira do Divino: que “a ban­dei­ra acre­di­ta que a se­men­te se­ja tan­ta (…), que o ho­mem se­ja li­vre, que a jus­ti­ça so­bre­vi­va”, o Ecomuseu e os en­vol­vi­dos de­ram um pas­so pa­ra que se man­te­nham ar­ti­cu­la­ções co­mu­ni­tá­ri­as e pro­ta­go­nis­mo co­le­ti­vo nes­se ter­ri­tó­rio, sen­do a re­a­ti­va­ção de um fol­gue­do po­pu­lar uma im­por­tan­te fer­ra­men­ta im­pul­si­o­na­do­ra.

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_________________. As Raízes do Futuro: O Patrimônio a Serviço do Desenvolvimento Local. Tradução de Maria de Lourdes Parreiras Horta. Porto Alegre: Medianiz, 2012. 256 p.