Ecologias

perspectivas e entrelaços da Educação ambiental com Arte

Cantos de um Sertão Carioca

O “Ecomuseu do Sertão Carioca”, criado em 2009,  tem como preocupações principais a preservação do patrimônio cultural aliado ao desenvolvimento social. O sertão carioca e seus inventários são pensados nos escritos de Bernardo Marques.
por Bernardo Marques

Da edição 20 - Podem as Práticas Artísticas Construir Territórios?
astrolábio nº 21 ano II set. 2017

Os conceitos de sertanidade e ruralidade estão intimamente ligados. O termo sertão apresenta origem e significados diversos, e controversos. Usaremos o conceito que Luís da Câmara Cascudo (2002) replica em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, que sertão é o mesmo que interior, termo mais ligado a permanência de costumes e tradições. Não menos contraditório o conceito de ruralidade pode ser trazido à luz através da etimologia da palavra rural – do latim ruralis: campo, terra agrícola. Mesmo não havendo registros oficiais e devidamente reconhecidos por parte dos órgãos governamentais – O censo de 2010 aponta o município sendo 100% urbano, e o “Plano diretor de desenvolvimento Urbano e Sustentável do Município do Rio de Janeiro” desconsidera as áreas rurais – , há uma concentração rural na cidade do Rio, que por interesses sociais, urbanísticos e ambientais é negligenciada. Estas atividades rurais estão concentradas na zona oeste da cidade, região que sofreu grandes mudanças nos recentes anos por conta da expansão urbana e dos grandes eventos sediados no município – Copa do Mundo FIFA de 2014 e os Jogos Olímpicos de Verão de 2016, esse último sendo o que mais gerou impacto na região.

As atividades rurais desta região encontram-se inventariadas no livro “O Sertão Carioca”, do naturalista Magalhães Corrêa, de 1936. As atividades e o povo – laborioso, segundo o autor – são retratados e etnografados através de textos e desenhos à nanquim em uma região compreendida entre os maciços da Tijuca e Camorim, denominada planície de Jacarepaguá. O autor registra pescadores, canoeiros, tamanqueiros, bananeiros, cesteiros, oleiros, entre outros labores artesanais na região. A obra, de domínio público, tem sido material de grande valia para pesquisadores, revisitada por acadêmicos contemporâneos que, como o próprio Corrêa, discutem o preservacionismo natural e cultural. O livro é um documento que comprova as práticas seculares e tradicionais da agricultura na região, onde ainda hoje há duas comunidades quilombolas, reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares. A obra de Magalhães Corrêa tem importância no reconhecimento dos bens naturais e culturais locais e na denuncia de territórios periféricos sem acesso às demandas básicas. No que tange a pesquisa patrimonial, limita-se a um mero inventário tecnocrático do patrimônio de um território, a partir de um olhar romântico de um artista naturalista.

Reconhecendo o valor e baseando-se no trabalho de Magalhães Corrêa, surge em idos de 2009 uma iniciativa de moradores da região da zona oeste: O “Ecomuseu do Sertão Carioca”. Criado em meados de 1970, o conceito de Ecomuseu se deve à Nova Museologia, que tem como preocupações principais a preservação do patrimônio cultural aliado ao desenvolvimento social. Baseia-se em três princípios: um território musealizável, um patrimônio – natural e cultural (composto por bens materiais e imateriais) – uma comunidade participativa. Assim, graças a esse entendimento do que vem a ser um Ecomuseu, membros de uma coletividade tornam-se atores de formulação, execução e manutenção do museu, pensando na dimensão do desenvolvimento social e comunitário do território. Eco, prefixo que se refere a uma noção de ecologia humana e as relações dinâmicas que o homem e a sociedade estabelecem com a sua tradição, seu meio ambiente (Varine, 2000). Hugues de Varine, um dos idealizadores do conceito, acredita que o patrimônio é o DNA do território e da comunidade (2013), porém mesmo a comunidade tendo a “herança genética” comum, há interesses segmentados nos grupos que a integram, o que torna árduo o processo participativo no reconhecimento do patrimônio.

Folia de Reis do Ecomuseu do Sertão Carioca: uma experiência participativa

Em 2016, o Ecomuseu do Sertão Carioca inicia uma articulação com grupos artísticos e de projeção folclórica da Zona Oeste do Rio para dar início à “Folia de Reis do Sertão Carioca”. O Ecomuseu inicia a aproximação de grupos da região com o intuito de resgatar memórias e (re)inventar tradições que outrora existiam na região. Segundo Cascia Frade (1997), em sua tese de doutorado em que analisa a transmissão de conhecimentos e oralidade nas Folias de Reis, a região contava com algumas folias de destaque, como a Folia de Reis Estrela Guia, do mestre-folião Silva. Tratam-se de grupos de cantores e instrumentistas, que constituem um grupo ritual do “catolicismo popular”, que realizam peregrinações (jornadas) às casas de amigos e devotos, no período natalino. Carlos Brandão (1977) analisou as Folias à luz do pensamento de Marcel Mauss e observou que essas manifestações populares estabelecem importantes laços sociais envolvendo seus participantes, sendo um potente sistema de trocas simbólicas. Assim sendo, a manifestação popular surge como uma possível ferramenta de mobilização e experiência participativa, já que atua como um disparador de uma integração comunitária, conceitos inseridos na proposta dos ecomuseus.

Sem pretensões de resgate de tradições folclóricas, e sem vinculo com instituições religiosas, com o objetivo de integração comunitária, surge uma manifestação cultural – “Os elementos da ‘tradição’ não só podem ser reorganizados para se articular a diferentes práticas e posições e adquirir um novo significado e relevância” (HALL, 2003 p.260). A partir da união do projeto/grupo Caipirando, de Jacarepaguá, que conta com mais de trinta músicos (entre rabequeiros, violonistas e violeiros – violeiros em grande maioria), com o grupo de brincantes da Pedra Branca, de Vargem Grande surge a proposta de um pastoril seguido de folia de reis em um roteiro de visitação de casas em Vargem Grande. Encontros mensais foram realizados, onde, além dos ensaios, eram discutidas questões comunitárias e organizacionais, que contou com a presença da professora Cascia Frade que nos direcionou na empreitada de construção de um folguedo que tivesse mais a pretensão de ser um aglutinador – uma espécie de devoção a uma promessa de desenvolvimento local e comunitário – do que um grupo de tradição. Os encontros permitiram debates, introdução aos conceitos de patrimônio e inventário e a compartilhamentos de memórias – o próprio palhaço da folia foi um antigo brincante de outra folia da região, a Folia do Morrinho da Alegria no Pontal.
Os cantos dessa folia, que teve sua jornada iniciada em 2017, têm potencial e intuito de ecoar no mínimo por mais sete anos, mas tem também o interesse de promover uma relação de reconhecimento do patrimônio, e suas ressonâncias, pelos próprios viventes deste território. Como citada na música de Ivan Lins e Vitor Martins, e cantada pela Folia de Reis do Sertão Carioca, a música Bandeira do Divino: que “a bandeira acredita que a semente seja tanta (…), que o homem seja livre, que a justiça sobreviva”, o Ecomuseu e os envolvidos deram um passo para que se mantenham articulações comunitárias e protagonismo coletivo nesse território, sendo a reativação de um folguedo popular uma importante ferramenta impulsionadora.

Bibliografia

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A folia de reis de Mossâmedes. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1977.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 11. ed. ilustrada. São Paulo: Global, 2002.

CORRÊA, Armando Magalhães. O sertão carioca, Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. 1936

DE QUEBEC, 1984, Declaração. DECLARAÇÃO DE QUEBEC, PRINCÍPIOS DE BASE DE UMA NOVA MUSEOLOGIA, 1984. Cadernos de Sociomuseologia, [S.l.], v. 15, n. 15, june 2009. ISSN 1646-3714. Disponível em: <http://revistas.ulusofona.pt/index.php/cadernosociomuseologia/article/view/342>. Acesso em: 20 fev. 2017.

FRADE, Cascia. O saber do viver: Redes sociais e transmissão do conhecimento. 1997. 266 f. Tese (Doutorado) – Curso de Educação, Ciências Humanas, Pontifícia Universidade Católica – Puc Rj, Rio de Janeiro, 1997. Citação com autor incluído no texto: Frade (1997)

GONÇALVES, José Reginaldo Santos. O patrimônio como categoria de pensamento. In: ABREU, Regina; CHAGAS, Mario (Org.). Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro: DP&A: Faperj: Unirio, 2003. p. 21-29.

Hall, Stuart. Notas sobre a desconstrução do popular. In: Sovik, Liv (org). Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Humanitas, 2003. pp. 247-264.

HOBSBAWM, Eric. “Introdução” In: HOBSBAWM, Eric. RANGER, Terence. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984, p. 9-23.

MOURA, Maria Izabel T. de. PROJEÇÃO E REINTERPRETAÇÃO FOLCLÓRICA. Disponível em: <http://www.mtg.org.br/tradicionalismo/286>. Acesso em: 20 fev. 2017.

VARINE, Hugues de. O Ecomuseu. Ciências e Letras: Educação e Patrimônio Histórico-cultural, Porto Alegre: FAPA, n. 27, p.61-90, jun. 2000. Semestral.

_________________. As Raízes do Futuro: O Patrimônio a Serviço do Desenvolvimento Local. Tradução de Maria de Lourdes Parreiras Horta. Porto Alegre: Medianiz, 2012. 256 p.