Interfases

efervescências humanas na arte e na poesis

Cartografias em movimento

da reinvenção do público do espaço urbano e do desejo de destruir invisibilidades cotidianas

por Claudio Barria

Da edição 10 - Em Trânsitos

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O tem­po pas­sa­do se acu­mu­la no es­pa­ço que ha­bi­ta­mos; é só de­am­bu­lar e olhar pra ver: o nos­so Espaço ho­je, con­tem ins­cri­tas as mar­cas da nos­sa his­tó­ria. Assim, a nos­sa ci­da­de de São Sebastião do Rio de Janeiro por exem­plo, se vis­ta com o olhar fi­no da me­mó­ria, deixa-se des­co­brir os se­gre­dos, anun­ci­an­do his­tó­ri­as ocul­tas pe­la nar­ra­ti­va ofi­ci­al de Cidade-turística-para-os-mega-eventos.

É co­mum co­nhe­cer­mos uma úni­ca his­tó­ria que nar­ra ca­da Cidade. Uma que não é ne­ces­sa­ri­a­men­te in­ve­rí­di­ca, mas uma úni­ca his­tó­ria que ocul­ta, no mo­vi­men­to em que pa­re­ce des­ve­lar, inú­me­ras his­tó­ri­as que se des­pren­dem, co­mo pers­pec­ti­vas autô­no­mas, des­de di­ver­sas tra­je­tó­ri­as que por trás de­la con­flu­em. A ci­da­de ma­ra­vi­lho­sa não é di­fe­ren­te.

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Morro do Castelo sen­do des­truí­do à ja­tos de àgua – O mor­ro ho­je não exis­te na car­to­gra­fia ca­ri­o­ca

[o público do espaço e a disputa do olhar]

A ques­tão é que uma ci­da­de co­mo es­ta é mui­tas ci­da­des ao mes­mo tem­po. Algumas de­las con­vi­vem de for­ma ten­sa na dis­pu­ta de ter­ri­tó­ri­os que ora se de­fi­nem e de­li­mi­tam, ora se in­ter­po­lam, redefinindo-se. Outras, de ma­nei­ra nem sem­pre trans­lú­ci­da, mas sem­pre in­trín­se­cas à ci­da­de que ha­bi­ta­mos, con­vi­vem ne­la su­per­pos­tas, em ca­ma­das de tem­po acu­mu­la­do. Estas, in­vi­si­bi­li­za­das pe­lo avan­ço dos pro­je­tos de mo­der­ni­za­ção de­fi­ni­dos pe­lo gran­de ca­pi­tal e sua in­sa­ciá­vel vo­ra­ci­da­de de tem­pos e es­pa­ços, con­tém mui­to da nos­sa me­mó­ria vi­tal, da­qui­lo que nos de­fi­ne co­mo co­le­ti­vos que ha­bi­tam e pro­du­zem es­te es­pa­ço nos­so.

Cada mo­vi­men­to so­ci­al, ca­da pro­ces­so de re­or­ga­ni­za­ção do tra­ba­lho, ca­da pro­je­to de po­lí­ti­ca pú­bli­ca, se­ja de re­for­ma po­lí­ti­ca, ur­ba­na, so­ci­al ou sa­ni­tá­ria, ca­da cri­se da so­ci­e­da­de, ca­da de­se­jo das su­as eli­tes, ca­da re­vol­ta dos con­de­na­dos da ter­ra e do sis­te­ma, ca­da ma­ni­fes­ta­ção cul­tu­ral en­rai­za­da, dei­xa­ram igual­men­te su­as mar­cas no es­pa­ço ha­bi­ta­do: um cor­ti­ço aqui, um sam­bó­dro­mo lá, uma gran­de ave­ni­da aco­lá, um an­ti­go bair­ro no­bre ora en­co­ber­to por um no­vo vi­a­du­to, um mu­ro gra­fi­ta­do, um ve­lho e so­ter­ra­do por­to de ne­gros es­cra­vi­za­dos tam­bém ne­le en­ter­ra­dos, um be­co com al­guns bar­zi­nhos, uma pe­que­na rua de pe­dras ao pé de cer­ta cen­te­ná­ria igre­ja, um mor­ro ocu­pa­do pe­los de­ser­da­dos da guer­ra, um mor­ro de­mo­li­do, um ater­ro, um mor­ro ocu­pa­do pe­lo exér­ci­to.

Para além das his­tó­ri­as con­ta­das pe­las aca­de­mi­as e das nar­ra­das pe­los ilus­tra­dos em di­ver­sas épo­cas, a ci­da­de e seus es­pa­ços lo­cais são li­vros aber­tos em que o po­vo dei­xa ins­cri­ta sua his­tó­ria e no qual po­de­mos (re)ler seu pre­sen­te. É es­sa a ci­da­de que le­mos ho­je, e é ne­la que, do mo­do pos­sí­vel, nos mo­vi­men­ta­mos. De um mo­do ou ou­tro, de­la se ali­men­tam nos­sa cri­a­ti­vi­da­de e nos­sa ca­pa­ci­da­de de rein­ven­ção.

Os ma­pas, até mui­to pou­co tem­po atrás (pou­qui­nho mes­mo), tra­zi­am im­pres­so ape­nas o olhar dos do­nos das coi­sas e das po­lí­ti­cas ofi­ci­ais so­bre a ci­da­de, se­guin­do a tra­di­ção que deu ori­gem aos ma­pas des­de os tem­pos de Ptolomeu: des­co­brir no­vos ter­ri­tó­ri­os pa­ra ocu­par mi­li­tar­men­te e anexá-los ao im­pé­rio.

Mas a ci­da­de con­tém não ape­nas uma úni­ca his­tó­ria pa­ra con­tar. Se há de fa­to mui­tas his­tó­ri­as sen­do cons­truí­das de lon­ga da­ta, cu­jas tra­je­tó­ri­as vêm se de­sen­vol­ven­do pa­ra con­for­mar o es­pa­ço múl­ti­plo e di­ver­so que ha­bi­ta­mos, es­ta he­te­ro­to­pia ur­ba­na que so­mos car­re­ga con­si­go di­ver­sos mo­dos de ver, de nar­rar e, lo­go, tam­bém de ma­pe­ar.

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[Tecnologias de fazer ver]

Assim, as car­to­gra­fi­as co­me­çam a se tor­nar par­te fun­da­men­tal do mo­do em que vêm emer­gin­do mui­tos dos mais di­ver­sos mo­vi­men­tos so­ci­ais, cul­tu­rais, es­té­ti­cos, ét­ni­cos, po­lí­ti­cos, e su­as lu­tas, an­sei­os, de­se­jos e rei­vin­di­ca­ções tam­bém múl­ti­plos.

A de fa­zer ma­pas é uma tec­no­lo­gia do po­der que, à for­ça de ines­pe­ra­da cri­a­ti­vi­da­de e con­vic­ção, vem sen­do ocu­pa­da e de­sa­pro­pri­a­da, por aque­les que lhe fo­ram his­to­ri­ca­men­te in­vi­sí­veis. E trata-se de uma tec­no­lo­gia que é, ao mes­mo tem­po, tec­nos e lo­gos, is­to é, mo­do de fa­zer e de pen­sar; pro­ces­so de ir sen­do e iden­ti­da­de. Nessa lon­ga his­tó­ria de do­mi­na­ções ter­ri­to­ri­ais e cul­tu­rais, apren­de­mos que quem no­meia pos­sui, pois o de­fi­nir é um ato tam­bém de cri­ar. Daí a im­por­tân­cia de car­to­gra­far, de sub­ver­ter os ma­pas ofi­ci­ais e a vi­são que de­les se des­pren­de so­bre nós.

As no­vas tec­no­lo­gi­as de in­for­ma­ção e co­mu­ni­ca­ção (TICs) e a cha­ma­da Cyber Cultura, fo­ram li­nhas de con­ver­gên­cia que se so­ma­ram a es­te pro­ces­so de se ver, se des­co­brir e de di­zer no mun­do. Esta con­ver­gên­cia de re­des de gen­tes, ob­je­tos, mé­to­dos e tec­no­lo­gi­as, vem per­mi­tin­do um sal­to que de tão ines­pe­ra­do, in­ten­so e abran­gen­te po­de­ría­mos nos dar a li­cen­ça de cha­mar de “quân­ti­co”.

Assis­ti­mos as­sim, nos úl­ti­mos anos a uma ver­da­dei­ra ex­plo­são de no­vas car­to­gra­fi­as par­ti­ci­pa­ti­vas en­vol­ven­do mo­vi­men­tos so­ci­ais os mais di­ver­sos. Em co­mum, a von­ta­de da achar, de di­zer, de co­mu­ni­car e (se)mobilizar, e de fa­zer is­so tu­do de for­ma co­la­bo­ra­ti­va.

O Astrolábio, que nas­ce já com vo­ca­ção car­to­grá­fi­ca, na­ve­gan­te e co­la­bo­ra­ti­va (Brinquedo de na­ve­gar sem per­der o Sul), é ele pró­prio par­te des­se mo­vi­men­to. Nos pro­po­mos as­sim, acom­pa­nha­dos de uma sé­rie de co­le­ti­vos en­vol­vi­dos de di­ver­sas for­mas na ar­te de car­to­gra­far a con­tra­pe­lo, co­me­çar aqui e ago­ra um mo­vi­men­to ex­plí­ci­to de ma­pe­ar quem ma­peia e o que vem sen­do ma­pe­a­do. A ideia é mui­to sim­ples: so­mar e se­guir em fren­te, dan­do mai­or vi­si­bi­li­da­de a quem faz pa­ra, jun­tos, con­tri­buir­mos com a pos­si­bi­li­da­de de te­cer re­lei­tu­ras so­bre o pú­bli­co do es­pa­ço ur­ba­no que ha­bi­ta­mos, so­bre o co­mum a to­dos e to­das, so­bre a po­tên­cia, a cri­a­ti­vi­da­de e poé­ti­ca des­te en­cla­ve mul­ti­cul­tu­ral, cu­jas his­tó­ri­as tan­to têm ali­men­ta­do o pró­prio ima­gi­ná­rio dos Brasil pos­sí­veis e so­nha­dos. 

Confira a se­guir um pri­mei­ro ma­pe­a­men­to de car­to­gra­fi­as bem ba­ca­nas e úteis pa­ra quem atua na área de cul­tu­ra e edu­ca­ção:

Rotas dos Pontos de Cultura
publica Jornalismo Investigativocultura viva Mapa do Cultura-Viva

Iniciativa do Observatório de Favelas
Guia Cultural de Favelas
mib
Mapa da Infância Brasileira
mamu
Coletivos de Mulheres
 mapa de saraus
Saraus do Rio
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ma­pe­a­men­tos co­la­bo­ra­ti­vos na in­ter­net
mapa educ. alter
Mapa da Educação al­ter­na­ti­va (no mun­do)

Termos de ino­va­ção so­cial
chute
Shoot the Shit
tupi
Tupi Vivo

Essa con­ver­sa es­tá em seu pon­to ini­ci­al. Junto de uma re­de de co­la­bo­ra­do­res pre­ten­de­mos am­pli­ar o de­ba­te acer­ca de car­to­gra­fi­as so­ci­ais, ma­pas co­la­bo­ra­ti­vos, no­vas tec­no­lo­gi­as e par­ti­ci­pa­ção.  Na mes­ma li­nha de re­fle­xão e fa­zer, re­ve­ja a ma­té­ria que o Astrolábio pre­pa­rou  se­guin­do os Fluxos da Rota Brasil.
E aguar­dem  nos­sas pró­xi­mas ro­tas!