Interfases

efervescências humanas na arte e na poesis

Cartografias em movimento

da reinvenção do público do espaço urbano e do desejo de destruir invisibilidades cotidianas

por Claudio Barria

Da edição 10 - Em Trânsitos
astrolábio nº 21 ano II set. 2017

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O tempo passado se acumula no espaço que habitamos; é só deambular e olhar pra ver: o nosso Espaço hoje, contem inscritas as marcas da nossa história. Assim, a nossa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro por exemplo, se vista com o olhar fino da memória, deixa-se descobrir os segredos, anunciando histórias ocultas pela narrativa oficial de Cidade-turística-para-os-mega-eventos.

É comum conhecermos uma única história que narra cada Cidade. Uma que não é necessariamente inverídica, mas uma única história que oculta, no movimento em que parece desvelar, inúmeras histórias que se desprendem, como perspectivas autônomas, desde diversas trajetórias que por trás dela confluem. A cidade maravilhosa não é diferente.

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Morro do Castelo sendo destruído à jatos de àgua – O morro hoje não existe na cartografia carioca

[o público do espaço e a disputa do olhar]

A questão é que uma cidade como esta é muitas cidades ao mesmo tempo. Algumas delas convivem de forma tensa na disputa de territórios que ora se definem e delimitam, ora se interpolam, redefinindo-se. Outras, de maneira nem sempre translúcida, mas sempre intrínsecas à cidade que habitamos, convivem nela superpostas, em camadas de tempo acumulado. Estas, invisibilizadas pelo avanço dos projetos de modernização definidos pelo grande capital e sua insaciável voracidade de tempos e espaços, contém muito da nossa memória vital, daquilo que nos define como coletivos que habitam e produzem este espaço nosso.

Cada movimento social, cada processo de reorganização do trabalho, cada projeto de política pública, seja de reforma política, urbana, social ou sanitária, cada crise da sociedade, cada desejo das suas elites, cada revolta dos condenados da terra e do sistema, cada manifestação cultural enraizada, deixaram igualmente suas marcas no espaço habitado: um cortiço aqui, um sambódromo lá, uma grande avenida acolá, um antigo bairro nobre ora encoberto por um novo viaduto, um muro grafitado, um velho e soterrado porto de negros escravizados também nele enterrados, um beco com alguns barzinhos, uma pequena rua de pedras ao pé de certa centenária igreja, um morro ocupado pelos deserdados da guerra, um morro demolido, um aterro, um morro ocupado pelo exército.

Para além das histórias contadas pelas academias e das narradas pelos ilustrados em diversas épocas, a cidade e seus espaços locais são livros abertos em que o povo deixa inscrita sua história e no qual podemos (re)ler seu presente. É essa a cidade que lemos hoje, e é nela que, do modo possível, nos movimentamos. De um modo ou outro, dela se alimentam nossa criatividade e nossa capacidade de reinvenção.

Os mapas, até muito pouco tempo atrás (pouquinho mesmo), traziam impresso apenas o olhar dos donos das coisas e das políticas oficiais sobre a cidade, seguindo a tradição que deu origem aos mapas desde os tempos de Ptolomeu: descobrir novos territórios para ocupar militarmente e anexá-los ao império.

Mas a cidade contém não apenas uma única história para contar. Se há de fato muitas histórias sendo construídas de longa data, cujas trajetórias vêm se desenvolvendo para conformar o espaço múltiplo e diverso que habitamos, esta heterotopia urbana que somos carrega consigo diversos modos de ver, de narrar e, logo, também de mapear.

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[Tecnologias de fazer ver]

Assim, as cartografias começam a se tornar parte fundamental do modo em que vêm emergindo muitos dos mais diversos movimentos sociais, culturais, estéticos, étnicos, políticos, e suas lutas, anseios, desejos e reivindicações também múltiplos.

A de fazer mapas é uma tecnologia do poder que, à força de inesperada criatividade e convicção, vem sendo ocupada e desapropriada, por aqueles que lhe foram historicamente invisíveis. E trata-se de uma tecnologia que é, ao mesmo tempo, tecnos e logos, isto é, modo de fazer e de pensar; processo de ir sendo e identidade. Nessa longa história de dominações territoriais e culturais, aprendemos que quem nomeia possui, pois o definir é um ato também de criar. Daí a importância de cartografar, de subverter os mapas oficiais e a visão que deles se desprende sobre nós.

As novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) e a chamada Cyber Cultura, foram linhas de convergência que se somaram a este processo de se ver, se descobrir e de dizer no mundo. Esta convergência de redes de gentes, objetos, métodos e tecnologias, vem permitindo um salto que de tão inesperado, intenso e abrangente poderíamos nos dar a licença de chamar de “quântico”.

Assistimos assim, nos últimos anos a uma verdadeira explosão de novas cartografias participativas envolvendo movimentos sociais os mais diversos. Em comum, a vontade da achar, de dizer, de comunicar e (se)mobilizar, e de fazer isso tudo de forma colaborativa.

O Astrolábio, que nasce já com vocação cartográfica, navegante e colaborativa (Brinquedo de navegar sem perder o Sul), é ele próprio parte desse movimento. Nos propomos assim, acompanhados de uma série de coletivos envolvidos de diversas formas na arte de cartografar a contrapelo, começar aqui e agora um movimento explícito de mapear quem mapeia e o que vem sendo mapeado. A ideia é muito simples: somar e seguir em frente, dando maior visibilidade a quem faz para, juntos, contribuirmos com a possibilidade de tecer releituras sobre o público do espaço urbano que habitamos, sobre o comum a todos e todas, sobre a potência, a criatividade e poética deste enclave multicultural, cujas histórias tanto têm alimentado o próprio imaginário dos Brasil possíveis e sonhados. 

Confira a seguir um primeiro mapeamento de cartografias bem bacanas e úteis para quem atua na área de cultura e educação:

Rotas dos Pontos de Cultura
publica Jornalismo Investigativo cultura viva Mapa do Cultura-Viva

Iniciativa do Observatório de Favelas
Guia Cultural de Favelas
mib
Mapa da Infância Brasileira
mamu
Coletivos de Mulheres
 mapa de saraus
Saraus do Rio
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mapeamentos colaborativos na internet
mapa educ. alter
Mapa da Educação alternativa (no mundo)

Termos de inovação social
chute
Shoot the Shit
tupi
Tupi Vivo

Essa conversa está em seu ponto inicial. Junto de uma rede de colaboradores pretendemos ampliar o debate acerca de cartografias sociais, mapas colaborativos, novas tecnologias e participação.  Na mesma linha de reflexão e fazer, reveja a matéria que o Astrolábio preparou  seguindo os Fluxos da Rota Brasil.
E aguardem  nossas próximas rotas!