Brasilidades

o Brasil profundo, a cultura popular identitária

A Casa do Brincar

O cuidado e a preservação da intuição humana na Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri

por Laís Lavinas

Da edição 10 - Em Trânsitos
astrolábio nº 21 ano II set. 2017

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A eficácia do amor

Situada na cidade de Nova Olinda (CE), a Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri é uma instituição cultural brasileira que se constitui como um complexo centro de pensadores que se propõe a apresentar memórias das tribos indígenas de origem Kariri através de um museu antropo-mítico-arqueológico gerenciado por um grupo infanto-juvenil da localidade. Uma instituição da sociedade civil, sem fins lucrativos, e referência em educação, cultura e memória, a ONG possui como objetivo “a formação interdisciplinar de crianças e jovens possibilitando o aguçar da percepção, a sensibilização do ver, ouvir, fazer, conviver, aprender e compreender (…).”, em que conhecimentos envolvendo as temáticas de memória social, identidade, patrimônio cultural, mitologia, arqueologia, gestão cultural, empreendedorismo social, turismo, meio ambiente, artes e cidadania são compartilhados.

Os fundadores Alemberg Quindins e Rosiane Limaverde – junto com os meninos e meninas da Casa Grande – criaram um ambiente de apoio e confiança coletiva que fomenta e estimula o aprendizado intuitivo através do cuidar e do brincar, em que crianças e jovens se desenvolvem de maneira autônoma e de acordo com os seus interesses.  

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Elaborar um texto sobre a Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Cariri e a sua força de inovar a educação é desafiador – há tanto para ser dito, registrado, apresentado, pensado, compartilhado e conhecido que a escolha de uma perspectiva soa empobrecida e desleal.  Então, para as pessoas que estão a ler este texto, fica um recado simples: a Casa Grande deve ser sentida para ser plenamente compreendida. Aqui tenta-se contar a beleza e a alegria dos processos de aprendizado criativo ocorridos nesse lugar encantado.

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A Vida do Mito

A dinâmica territorial do cuidar e do brincar na Casa Grande tem como base geocultural as memórias antropo-mitológicas dos Kariris. Através da mitologia indígena resgatam-se lendas e histórias de povos que contam os encantos da Chapada do Araripe e narram a origem sagrada da natureza da vida. O homem é apresentado como ser natural e elemento único de encanto; cada pessoa é singular, portanto é elementar. O Homem Kariri se concretiza na Fundação Casa Grande por meio da arqueologia social inclusiva, em que o elemento humano é mostrado aos meninos e meninas como as vísceras da Chapada do Araripe.

Essa base viabiliza a chegada natural das crianças na Casa, como se fossem seus habitantes originários, já que o aprendizado infantil é único, elementar, singular, intuitivo. Ao serem acolhidos e cuidados pelos habitantes mais antigos da Casa Grande – o que inclui as culturas Kariris – as crianças chegam e encontram a liberdade de criar, de ser, de brincar. A inteligência infantil é respeitada e reconhecida; os meninos e meninas que incorporam o cotidiano da Casa, possuem sua intuição preservada e conquistam a mesma voz que os mais velhos. O pensamento elementar é valorizado na Casa Grande, o que permite o desenvolvimento da confiança, da autoestima, do emponderamento sociocultural.

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Os mitos Kariris vivem nos processos de desenvolvimento humano que florescem em cada menino e menina da Casa – a ancestralidade Kariri guarda e preserva a dinâmica territorial do cuidar e do brincar. Assim, a Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri pratica uma filosofia educacional que fomenta o desenvolvimento do equilíbrio entre o indivíduo e o coletivo.

O Brincar

“Nossa, a Casa parece de brinquedo!” – quem frequenta cotidianamente a Casa Grande sabe o quão presente essa frase se faz; não só nas primeiras falas dos visitantes que estão a conhecer o lugar, mas também na essência originária do ambiente. Essa presença se dá de forma tão forte que pode-se até pensar que um gera o outro, como se a fala chamasse a essência, e a essência a fala.  

A brincadeira é a base de todos os processos de aprendizado na Casa Grande, para cada lado que se olha, cada som ouvido, cheiro sentido, há a alegria do brincar. Todos os frequentadores do espaço brincam de aprender a ser. Ser o que quiser ser. Basta aprender; basta brincar. Brincar de ser radialista; técnico de iluminação teatral, de som, de escavação arqueológica; diretor de cinema; fotógrafo; editor de gibis; desenhista; arqueólogo; donos de casa; gerente de museu, de bibliotecas, de teatro, do almoxarifado;  músico; produtor musical; criador de trilhas sonoras; gestor turístico; guia de museu; designer; chef de cozinha; estilista; ator; produtor cultural; gestor cultural. De tanto brincar de ser, eles são.

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A leveza e a beleza do aprender na Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri está no estímulo à intuição. Ao valorizar o ambiente do brincar, a intuição vira protagonista dos processos de aprendizado, em que a criatividade ganha espaço e liberdade. Quando alguém quer plantar uma ideia, ou seja, quer brincar de ser o que quiser ser, esta pessoa se torna responsável pelo desenvolvimento e florescimento daquela ideia. Ela guiará a execução de seu aprendizado, seguirá a sua intuição e compartilhará seu processo criativo com os outros. Assim, as situações se desenvolvem de forma espontânea e são potencializadas pela infraestrutura laboratorial disponibilizada pela instituição.

A brincadeira se transforma em aprendizado quando as crianças e jovens acessam e interagem com a dinâmica territorial da Casa. Esta interação não se faz somente pelo uso do espaço físico; ao brincar de ser (o que quiser ser) os mais novos observam e dialogam com os mais velhos. Conforme a maturidade do aprendizado vai crescendo em cada um, as responsabilidades vão se complexificando e o compromisso de compartilhar o conhecimento se fortalece. Desta forma, cria-se uma dinâmica de autogestão compartilhada, em que o território laboratorial da Casa Grande acolhe o cuidado coletivo entre seus frequentadores e os estimula a manter diálogos de aprendizado criativos.

O Cuidar

Enquanto a brincadeira é o espaço da liberdade criativa na Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri, o cuidado coletivo é o ambiente da responsabilidade. O direito à liberdade de criação vem acompanhado de compromissos coletivos. É preciso cuidar do outro, do espaço de todos, amar os deveres como se ama os direitos. O cuidar zela e permite a leveza e a alegria do brincar; é o que assegura a liberdade criativa dos meninos e meninas ao fornecê-los tranquilidade para acreditarem em suas ideias.

O cuidado traz o apoio afetivo ao mesmo tempo em que mostra a importância da responsabilidade coletiva. Quando se faz com amor, cuida-se. Alemberg Quindis e Rosiane Limaverde repetem aos grandes, médios e pequenos pupilos culturais para executarem suas tarefas e seus processos de aprendizado com carinho e amor verdadeiros – “Façam porque amam, porque gostam. Tenham carinho pelo o que fazem e busquem colecionar boas memórias.”.  

Assim, eles cuidam de tudo a sua volta. Cuidam um do outro; cuidam do espaço; cuidam de seus deveres; cuidam de si mesmos; cuidam dos visitantes; cuidam de mostrar Nova Olinda ao mundo; cuidam de gerenciar eventos culturais; cuidam das memórias Kariri; cuidam da casa; cuidam de criar; cuidam de inventar de ser; cuidam de brincar. É no cuidado que enxergam seus papéis e a si mesmos, é no cuidado que realizam conexões amorosas e de carinho. Eles seguem os conselhos dos orientadores da Casa: amam cumprir seus deveres e se divertem com a liberdade dos direitos.  

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O cuidado coletivo na dinâmica territorial da Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri ajuda a construir relações sociais mais sinceras, solidárias, honestas, éticas, leves e alegres.  O cuidar é responsável por sustentar os processos de aprendizado criativo entre os meninos e meninas da Casa, pois ativam os ciclos de diálogo e interação entre eles e deles com o mundo. Quem “de fora” adentrar na Casa Grande encanta-se com a vitalidade e a generosidade da inteligência lúdica; tem a oportunidade de resgatar sua criança e sentir o ambiente encantado da infância.

Todas as fotografias são de Hélio Filho,  menino da Casa desde os nove anos  até os 28, sua idade atual . Assista também o vídeo  feito por ele sobre a fundação:

Links:

https://www.youtube.com/user/TVCASAGRANDE

https://blogfundacaocasagrande.wordpress.com/