Cultura Viva

de e sobre Pontos, pontinhos e pontões de cultura

É tempo de resistência

Sancionada em julho de 2014 a Lei 13.018 cria a Política Nacional de Cultura Viva como política de Estado.  Mas do que trata e qual a situação dela hoje? Davy Alexandrinsky é parte dessa história desde seu início em 2005 e partilha seu olhar com o Astrolábio.
por Davy Alexandrisky

Da edição 20 - Podem as Práticas Artísticas Construir Territórios?

A Cultura é Viva! É vi­va e di­nâ­mi­ca. E a par­tir des­sa con­cep­ção Célio Turino, ges­tor pú­bli­co, con­vi­da­do a as­su­mir à SPPC – Secretaria de Programas e Projetos Culturais do MINC, lo­go no iní­cio da ges­tão Lula/Gil, propôs o de­sa­fio de ins­ti­tu­ci­o­na­li­zar es­se con­cei­to da Cultura Viva. Transformá-lo em um Programa de Governo ou, mais am­bi­ci­o­sa­men­te, em po­lí­ti­ca pú­bli­ca de Governo.

Nascia as­sim, com o aval en­tu­si­as­ta do Ministro Gilberto Gil um Programa de ges­tão que vi­ria a se trans­for­mar em Política Pública de Cultura Viva, in­cor­po­ra­da à Constituição Brasileira, no seu Art. 216, que es­ta­be­le­ce o Sistema Nacional de Cultura.

Foi tu­do mui­to rá­pi­do!

Rápido e atro­pe­la­do. Nas pa­la­vras do pró­prio Célio, foi uma gran­de apos­ta po­lí­ti­ca. Decidiu-se en­fren­tar – ou pas­sar por ci­ma – o con­jun­to de for­ma­li­da­des ju­rí­di­cos bu­ro­crá­ti­cas pa­ra ga­ran­tir a im­plan­ta­ção do Programa Cultura Viva em seis me­ses, a con­tar da sua pri­mei­ra con­ver­sa com o Ministro: era exe­cu­tar ou fi­car no pla­ne­ja­men­to até ser ven­ci­do pe­las tra­vas da má­qui­na pú­bli­ca.

E a op­ção foi exe­cu­tar.

Vivíamos um mo­men­to má­gi­co no País, com um diá­lo­go cres­cen­te en­tre o Governo e a Sociedade, que nun­ca ti­ve­ra aces­so a qual­quer ti­po de in­ter­lo­cu­ção com as au­to­ri­da­des cons­ti­tuí­das. Havia um cal­do de cul­tu­ra fa­vo­rá­vel à de­so­be­di­ên­cia ce­ga a cer­tos ana­cro­nis­mos car­to­ri­ais. Um em­po­de­ra­men­to que as­sal­ta­va a quem as­su­mia as po­si­ções de co­man­do na ges­tão pú­bli­ca.

O de­se­nho do Programa for­mu­la­do pe­lo Célio cri­a­va a opor­tu­ni­da­de de mos­trar um Brasil até en­tão des­co­nhe­ci­do pe­los bra­si­lei­ros: “uma pro­pos­ta de de­ses­con­der o Brasil pro­fun­do”, co­mo ele re­pe­tia re­cor­ren­te­men­te, con­sa­gran­do na­ci­o­nal­men­te es­sa ideia.

Era – e é – sem dú­vi­da, uma re­vo­lu­ção no cam­po das po­lí­ti­cas pú­bli­cas que, por de­fi­ni­ção, an­dam a re­bo­que das ca­rên­ci­as.

Se há ca­rên­ci­as na área ha­bi­ta­ci­o­nal se pen­sa nu­ma po­lí­ti­ca pú­bli­ca pa­ra saná-las – “Minha Casa Minha Vida”. O mes­mo acon­te­ce se há ca­rên­ci­as no cam­po do aten­di­men­to mé­di­co, pro­vo­can­do uma po­lí­ti­ca pú­bli­ca pa­ra sa­nar o pro­ble­ma – “Mais Médicos”. Ou ain­da, di­an­te da ca­rên­cia em re­la­ção à dis­tri­bui­ção de ren­da – “Bolsa Família”…

A pro­pos­ta do Programa Cultura Viva sub­ver­teu es­sa ló­gi­ca, ao se pro­por atu­ar jus­ta­men­te no cam­po da po­tên­cia. Se al­gu­ma ini­ci­a­ti­va cul­tu­ral de ba­se ter­ri­to­ri­al for­ta­le­cia o ter­ri­tó­rio de al­gu­ma ma­nei­ra, o Estado se apre­sen­ta­ria pa­ra for­ta­le­cer es­sa ação.

O que cha­mou a aten­ção do Ministro Gil, levando-o a afir­mar que a pro­pos­ta do Programa Cultura Viva ma­te­ri­a­li­za­va uma ex­pres­são que ele ha­via cri­a­do em seu dis­cur­so de pos­se: o “do-in an­tro­po­ló­gi­co”. Metaforicamente, uma po­lí­ti­ca de es­tí­mu­lo às ações cul­tu­rais ener­gé­ti­cas.

A pro­pos­ta ain­da em­bu­tia um enor­me con­jun­to de no­vi­da­des, su­por­ta­da pe­lo tri­pé: au­to­no­mia, em­po­de­ra­men­to e pro­ta­go­nis­mo, que am­pli­a­va o cam­po de dis­pu­ta com o car­tó­rio bu­ro­crá­ti­co do Estado, ne­gan­do al­gu­mas prá­ti­cas con­sa­gra­das das con­vo­ca­ções pú­bli­cas.

Por exem­plo, ao con­trá­rio dos re­cor­ren­tes Editais da área da Cultura, os Pontos de Cultura não es­ta­vam li­mi­ta­dos a qual­quer lin­gua­gem ar­tís­ti­ca. Num mes­mo Edital con­cor­ri­am ex­pe­ri­ên­ci­as li­ga­das ao te­a­tro, ou a mú­si­ca, ou ao au­di­o­vi­su­al, ou a li­te­ra­tu­ra, ou a cul­tu­ra de ma­triz afri­ca­na, ou ao cir­co… com­pe­tin­do en­tre si sem ne­nhu­ma hi­e­rar­quia, sub­me­ti­das a um cri­té­rio de jul­ga­men­to co­mum, in­de­pen­den­te do con­teú­do ar­tís­ti­co.

Ficava, des­de en­tão, mui­to cla­ro, que a ló­gi­ca que pas­sa­va a pre­si­dir o jul­ga­men­to dos Pontos de Cultura era o prin­cí­pio cul­tu­ral e a sua con­di­ção de po­tên­cia mo­di­fi­ca­do­ra nas re­la­ções do ter­ri­tó­rio, aon­de a ação acon­te­cia. O co­mo es­sas ações afe­ta­vam as co­mu­ni­da­des.

Mas, cer­ta­men­te, um ou­tro di­fe­ren­ci­al se so­bre­pu­nha nes­se de­se­nho re­vo­lu­ci­o­ná­rio de Programa de Governo: a exi­gên­cia do uso de uma par­te dos re­cur­sos fi­nan­cei­ros ofe­re­ci­dos pe­lo Programa pa­ra a com­pra de um “kit mul­ti­mí­dia”, com a fi­na­li­da­de de co­nec­tar es­sas ações iso­la­das nu­ma gran­de Rede Nacional de Pontos de Cultura, pa­ra cri­ar uma ca­pi­la­ri­da­de de ações cul­tu­rais de ba­se ter­ri­to­ri­ais ca­paz de es­ti­mu­lar a re­pli­ca­ção das ex­pe­ri­ên­ci­as, mos­tran­do a um mai­or nú­me­ro de bra­si­lei­ros um Brasil pro­fun­do, ri­co em ma­ni­fes­ta­ções, até en­tão des­co­nhe­ci­do da mai­o­ria da po­pu­la­ção.

Eram bra­si­lei­ros, até en­tão in­vi­si­bi­li­za­dos, au­to­no­ma­men­te em­po­de­ra­dos, pro­ta­go­ni­zan­do a sua Cultura au­tên­ti­ca.

Mas, por ób­vio, as for­ças con­ser­va­do­ras do Estado não se cur­va­ri­am fa­cil­men­te di­an­te des­sa dis­pu­ta en­tre os car­tó­ri­os da bu­ro­cra­cia es­ta­tal e a ges­tão pro­gres­sis­ta.

Ao con­trá­rio, o que se vê, in­clu­si­ve pa­ra além das fron­tei­ras do Ministério da Cultura, é um mo­vi­men­to vi­o­len­to de re­cru­des­ci­men­to dos Órgãos de Controle, com a inau­gu­ra­ção de um pro­ces­so per­ver­so de ju­di­ci­a­li­za­ção ili­mi­ta­da e cres­cen­te do Estado bra­si­lei­ro, co­mo ja­mais ha­vía­mos ex­pe­ri­men­ta­do.

Passamos a ser to­dos cul­pa­dos até pro­va em con­trá­rio, nu­ma afron­ta ao prin­cí­pio da pre­sun­ção da ino­cên­cia. Uma on­da de cri­mi­na­li­za­ção var­reu o con­jun­to de pe­que­nas or­ga­ni­za­ções pro­po­nen­tes de ações chan­ce­la­das co­mo Ponto de Cultura.

Com pou­co mais de três anos de fun­ci­o­na­men­to do Programa, em 2007 há uma in­ter­rup­ção de re­pas­ses de re­cur­sos que ame­a­ça se­ri­a­men­te o Programa Cultura Viva, por mais de um ano. O que só foi mi­ni­mi­za­do pe­la agi­li­da­de da ges­tão cri­a­ti­va do MINC, que cria um con­jun­to de edi­tais de ações, que fo­ram cha­ma­das de Ações Estruturantes, que, de cer­ta for­ma, sal­va­ram o Programa de um co­lap­so ir­re­ver­sí­vel, man­ten­do de al­gu­ma ma­nei­ra um flu­xo fi­nan­cei­ro pa­ra não asfixiá-lo de vez.

Mas co­mo Hidra de Lerna, o Programa Cultura Viva e os Pontos de Cultura, a ca­da ten­ta­ti­va de des­trui­ção se re­ge­ne­ra­va com for­ça do­bra­da, re­sis­tin­do a vá­ri­os mo­men­tos de in­com­pre­en­são so­bre a sua im­por­tân­cia pa­ra um se­tor da Cultura con­de­na­do à mar­gi­na­li­da­de pe­la in­dús­tria cul­tu­ral.

Hoje, quan­do o Programa as­su­me o sta­tus de Política Nacional de Cultura Viva, pro­te­gi­do cons­ti­tu­ci­o­nal­men­te, vi­ve­mos mais um des­ses mo­men­tos dra­má­ti­cos de in­com­pre­en­são da sua im­por­tân­cia co­mo ins­tru­men­to de va­lo­ri­za­ção e pre­ser­va­ção da nos­sa iden­ti­da­de cul­tu­ral.

Perpetra-se um ver­da­dei­ro mas­sa­cre con­tra a Política Nacional de Cultura Viva, tão so­men­te pa­ra sa­tis­fa­zer a vo­ra­ci­da­de bu­ro­crá­ti­ca do Estado Brasileiro, que, ao ar­re­pio da pró­pria le­gis­la­ção, im­põe um ema­ra­nha­do de exi­gên­ci­as fis­cais, num mas­sa­cre im­pi­e­do­so, con­tra Organizações e agen­tes cul­tu­rais que já de­mons­tra­ram so­be­ja­men­te, in­clu­si­ve do­cu­men­tal­men­te, te­rem exe­cu­ta­do mais do que ha­vi­am se com­pro­me­ti­do a exe­cu­tar con­tra­tu­al­men­te nos seus Planos de Trabalho apro­va­dos pe­lo Ministério.

Mais uma vez, cer­ta­men­te, nós da Ponta (ou Ponteiros, co­mo so­mos co­nhe­ci­dos, os par­ti­ci­pan­tes da Cultura Viva) ha­ve­re­mos de re­sis­tir bra­va­men­te, fa­zen­do nas­cer du­as ca­be­ças no lu­gar de ca­da uma ca­be­ça que nos for cor­ta­da, pe­la in­com­pre­en­são da má­qui­na bu­ro­crá­ti­ca, mul­ti­pli­can­do nos­sa for­ça, pa­ra qua­li­fi­car o Estado bra­si­lei­ro no diá­lo­go com a so­ci­e­da­de ci­vil.

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