Interfases

efervescências humanas na arte e na poesis

Francisco Brennand – Construtor de Catedrais

 O barro como matéria da criação  é levado ao seu ponto máximo no museu vivo de Brennand 

por João Paulo de Oliveira

Da edição 01 - Arte e Cultura Popular
astrolábio nº 21 ano II set. 2017

oficina-francisco-brennand-recife-89 (1)

A Oficina de Cerâmica Francisco Brennand é um museu que se contrapõe ao estático. Ele é aberto ao público e está à beira do rio Capibaribe, no Recife. Nela, as obras escolhem seus lugares e seu criador apenas rematerializa as formas-pensamentos e as criações literárias. É também, uma experimentação constante para retratar o homem, mas que em prática, exalta a reprodução, a mãe, a terra e o feminino.

Encrustado no mangue do Capibaribe, um Recife mateiro surpreende a alma e os olhos de quem chega desavisado. Um portal com estátuas em um tom que evidencia o barro e as mãos de artesão. No centro, uma câmara com uma cúpula e além, pequenas piscinas rodeadas de ovos gigantes e imagens que emolda sensações. Com a cerâmica pintada e talhada, individualmente ou em conjunto, a obra confunde a condição física para a existência. A partir das ruínas de uma antiga fábrica de tijolos, o herdeiro errante criou uma obra em movimento que parece não ter fim e que ao mesmo tempo, fala do princípio: o mistério da reprodução. Francisco Brennand nasceu na periferia da capital pernambucana em 1927, em uma propriedade de seu pai, rico industrial.

Ali foi criado, isolando-se na infância de uma cidade em potência e nas emoções só encontradas nos livros e em uma vida próxima à natureza. Na juventude, já entrelaçado pela literatura, apaixonou-se pela pintura e tomando contradição ao destino de seus parentes, negou a verve de empresário e se autoproclamou artista. Brennand deixou de lado a fortuna e investiu seu maná na condição cotidiana de recriar na matéria as emanações colhidas em sua memória e experimentação literária.

oficina-francisco-brennand-recife-16 oficina-francisco-brennand-recife-87 (1) oficina-francisco-brennand-recife-9

Brennand saiu do Recife, indo estudar na Europa em busca de aprimorar a pintura, sua paixão. O artista assume a mudança de opinião em relação à modulação da argila. Até então, enxergava a cerâmica mais como uma arte decorativa, ignorando de princípio, a potência que iria encontrar no material já em sua volta ao Brasil nos anos 60. Somente percebeu a ignorância ao saber que Picasso havia estreado nas artes plásticas com uma exposição de esculturas em argila. Assim, retrocedeu em seu sentimento de preconceito elitista sobre as peças do artesão. Aproveitando do material em abundância, sua carreira se iniciou com a pintura sobre a cerâmica e com o passar dos anos, foi se inclinando à tridimensionalidade.

Em 1971, resolveu intervir na antiga e abandonada fábrica de seu pai. Iniciou uma reforma arquitetônica ao lado de uma intensa produção de formas que misturam o homem, os animais, o espírito e a memória à terra através do processo ceramista, herdado das atividades anteriores. Muitas pessoas se surpreendem com as narrativas do terreno e os sentimentos despertados ao mesmo tempo que são contrapostos pela grandeza em meio a um caminho que não avisa, deparam-se com certo tom antagônico ao citadino e ao tecnológico. Estranham o conceito de belo e divino. Personagens oníricos e textuais fazem a experiência se ampliar como uma necessidade de investigação sobre aquele que está por trás de seus arranjamentos. Brennand nega a criação e também a escolha do lugar ocupado por cada ser de barro. Para o artista, ele não inventa, mas sim, refaz algo que já havia sido. E são as esculturas que aparecem e escolhem seus locais de eternidade, em um sentimento pleno de liberdade.

Processo e simbolismo

Brennand utiliza da participação de artesãos no processo de produção das peças. Suas mãos se tornam várias. Ele desenha a forma, cria uma maquete e seus ajudantes executam. O conhecimento sobre o manuseio e a queima é de responsabilidade de quem faria centenas de imagens iguais e ali tem a oportunidade de contribuir para o próprio entendimento criativo.

O artista admite a obsessão como motor para a continuidade sem interrupção. Para Brennand, a reprodução é o grande mistério e seu processo é o que faz com que todas as coisas existam. Ela permite o prosseguimento, dando a oportunidade sempre da repetição e consequente recriação. Permite também o reaproveitamento do barro, do construído, do resquício do anterior. A memória que parece se apagar, permanece para que o sopro do espírito e as mãos possam reordenar o movimento, velando para sua continuidade.

Isolado na mata e nos livros, Brennand aprendeu a apreciar deuses de vários lugares. Desde o homem científico aos africanos. Entre eles, Oxóssi. O deus preservador da vida na floresta, embora um predador que afugenta o homem de pequeno espírito. Tal como o ovo – a forma primordial, e o útero – o forno da criação, Oxóssi defende a existência e por isso, tem na mente destrutiva e comensal do homem seu inimigo comum à Natureza. Sabe, como o filósofo, que nunca alcançará aquilo que caça, mas a busca pela preservação do primordial é a obsessão, assim como a tentativa de se alcançar a verdade pelo pensador.

oficina-francisco-brennand-recife-68

Pela arte, Brennand interrompeu a própria potencia de destruição. Ao não se assumir capitalista, concentrou seus esforços em criar um paraíso de exaltação à Terra e todas as suas formas e filhas. Assume-se um fiel, um construtor de catedrais, sem que se louve com o exclusividade o céu, mas sim, aquilo que está no dentro e brota, a transmutação, a argamassa da alma, na lama e em Prometeu, o fogo e a entropia. Como escultor de sonhos, trouxe ao mundo a alegria de vê-los em exemplo, sendo feito e compartilhado. A primazia da matéria conduzida pela criatividade e a força do espírito. Ali, se salva a Grande mãe, sauda o mistério e a prática de Nanã Borocô!

A sensação de quem parte da Oficina é a de nunca deixar de voltar, não apenas para viver sua experiência, mas para poder sempre assumi-la como uma possibilidade para a vida. Criar a si mesmo, em busca de um mesmo primordial, percorrendo o caminho para se voltar ao dentro e deste para o fora, novamente.

oficina-francisco-brennand-recife-53

Oficina Francisco Brennand:

Propriedade Santos Cosme e Damião, S/N – Várzea, Recife – PE, 50740-970, Brasil
http://www.brennand.com.br
(81) 3271-2466