Abya-Yala

a cultura popular identitária da Nossa América

Fui ao Chile e não o achei

O ensurdecedor silêncio da nova metrópole que se levanta sobre o túmulo da própria memória, ostenta a sua organização do espaço urbano homóloga ao discurso neoliberal que lhe deu origem e razão de ser.  Que sociedade ensina Santiago hoje? Como educar sem memória?
por Claudio Barría Mancilla

Da edição 14 - Laboratório Rua
astrolábio nº 21 ano II set. 2017

O meu país foi sempre vários países, alguns totalmente antagônicos e, embora a intrínseca colonialidade da contingência política me obrigasse a viver sob a hegemonia deste ou aquele, sempre soube encontrar, nos seus interstícios, o país da minha pertença. Com arranjo a um complexo sistema de significados e sentidos que intercambiavam seus valores de uso segundo as relações em tensão, “achava-me” com relativa facilidade, constituindo a minha dupla consciência crioulizada*.  

A estrada do aeroporto ao subúrbio de Santiago me chamou a atenção.  Uma moderna via expressa anunciava o redesenho da urbe, tido como parte do “progresso que o modelo trouxe ao país”.  “A terra do ‘bip’” teria batizado o Chile que então começava a (re)conhecer; De tantos em tantos metros um “bip” anunciava o encargo ao cartão de crédito do motorista.  Vias como esta, que circunda toda a capital, cruzam-na mesmo por baixo do principal rio, o Mapocho, unindo o centro da cidade ao bairro financeiro e ao nobre.  Um olhar atento descobre vias paralelas que acompanham seu traçado com menos infra-estrutura e uma quantidade considerável a mais de trafego.  Nessas, ônibus lotados do sistema de transporte público, Transantiago, acolhem as massas de trabalhadores em troca do respectivo ‘Bip’ no cartão de cada um.

14 de Septiembre 2012/SANTIAGO Con motivo del inicio de las Fiestas Patrias,una gran congestion vehicular se esta generando a esta hora de la tarde en las principales arterias de la capital.Una de la principales vias con mayor atochamiento es la autopista central. FOTO:CRISTOBAL ESCOBAR/AGENCIAUNO

Foto: Cristobal Escobar/AGENCIAUNO

Por sua vez, o Metrô, moderno e eficiente, cobre quase toda a capital.  Junto dele a cidade mudou sua configuração, fazendo surgir nova atividade comercial em bairros periféricos, onde hoje se erguem imponentes “Shopping Centers”.  A propaganda e o clima de consumo são onipresentes no novo Chile, como cumprindo as profecias de Ridley Scott em Blade Runner e George Orwell, em 1984.  Assim também é a propaganda das Universidades, privadas ou ‘tradicionais’ – o conceito de educação pública foi banido do debate, assim como a ideia de haver um direito à educação, que bane por sua vez qualquer “serviço” de ensino superior não pago.  Em 2010 a chamada “indústria” da educação faturou mais de US$ 15 bilhões.

O Chile da minha memória, do meu imaginário, alimentou meu desterro casual e prolongado com imagens de um povo cindido, mas apaixonado, engajado em diversos projetos de se construir como nação, articulador de sonhos coletivos, amante da sua violenta, contrastante e bela geografia, paisagem rebelde como seu caráter historicamente libertário, gente de um romantismo nobre e espartano.  As fachadas da velha Valparaiso chegaram a ser ícone de uma cultura encantada pela capacidade de homens e mulheres de reinventar pobreza material em dignidade e poesia.  Santiago, com quase quinhentos anos e mais de seis milhões de habitantes, tem inscrita nas suas ruas e construções, as principais lutas que fizeram a nação: as epopéicas e as cotidianas, as que encheram páginas de livros e telas de cinema e as que, invisibilizadas pelos devaneios do poder, se erguem passo a passo construindo a vida de um povo.  Na juventude, ao caminhar pelos bairros sempre pensava, como desvincular a estética das velhas ruas dos sonhos que se teciam silenciosamente nas suas casas? Sem dúvida, aquela cidade me ensinava.

Dessa vez, fui caminhar pelas ruas de Ñuñoa, o meu velho bairro, em busca de memórias que alimentassem novos futuros possíveis.  Caminhei horas, perdido e isolado na fronteira entre as ruas da minha memória e as que ora encontravam-se sob os meus pés.  No lugar, arrogantes torres de apartamentos, condomínios residenciais de luxo e novos empreendimentos imobiliários.  Onde tinham ido parar, em tão pouco tempo, os velhos vizinhos? Onde seus sonhos, seus projetos de vida, suas lutas?

1279721_600Todo retorno é um revisitar – conceitos, histórias, territórios e sujeitos, a cada volta surgem novos estranhamentos, novos olhares.  Agora uma relação íntima entre a abrupta mudança estrutural da cidade e os usos que as pessoas fazem dela, surgia chamando-me a atenção sobre sua incidência na própria noção de cidadania e democracia, escancarando um paralelo entre a cidade oculta e a construção de um discurso sobre a realidade, tecnocrático e pragmático, que oblitera conceitos outrora fundamentais para se pensar a sociedade.  Com traçados de modernidade eurocêntrica, colocam-se os limites do que é possível ser proposto ou mesmo sonhado.  O ensurdecedor silêncio da nova metrópole que se levanta sobre o túmulo da própria memória, ostenta a sua organização do espaço urbano homóloga ao discurso neoliberal que lhe deu origem e razão de ser.  Santiago é hoje uma cidade que nega seu passado.  A política implícita nas ruas parece assim tão eficiente e pragmática quanto a da gestão dos grandes negócios do capital.  Senti urgente lembrar os debates sobre a Cidade educadora na década de 1990, que sociedade ensina Santiago hoje? Qual o projeto de mundo que propõe? Como educar sem memória?

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Fonte: A Página