Arte/Educação

memória, conceitos, reflexões e práticas da Educação através da Arte

Mediação Cultural como arte/educação

Cartografia, geopoética dos sentidos.

por Lilian Amaral

Da edição 20 - Podem as Práticas Artísticas Construir Territórios?

A contemporaneidade artística e cultural configura-se enquanto panorama complexo, nele a figura do Artista Mediador, do Artista/Professor/Pesquisador/Cartógrafo ou, como nos informa Rita Irwin ‘o Artógrafo’, reveste-se de um relevo especial como um sujeito chave nos processos de intercâmbio cultural, compartilhamento de saberes e geradores de experiências, contribuindo para a dinamização das interações e redes sociais por operar na articulação e no agenciamento da criatividade social, ação coletiva e as práticas artísticas.

Alargar a reflexão na configuração de campos de conhecimento, partindo das relações entre Arte Contemporânea e processos de mediação, extrapolando-as, revela um esforço em tratar o Ensino da Arte e a Mediação Cultural como um campo do saber associado a diversos gêneros e práticas artísticas, parecendo ser produtivo considerá-la não como disciplina, sem lugar discursivo definido, justamente por entender que enquanto procedimento interativo reflexivo moldado a inúmeras variáveis e negociações pertinentes, posiciona-se e desenvolve-se em zonas intermediárias, intervalares, de traçado difuso entre as coisas, os saberes, as pessoas e entre essas e os territórios, entendendo-os, sobretudo, como territórios culturais.

Talvez essa identidade transitiva e transterritorial, seja justamente o seu principal atributo no campo cultural. Pierre Bourdieu, ao elaborar a teoria dos campos, estabelece que toda a organização social está estruturada por uma série de espaços que têm suas regras próprias e leis de funcionamento, onde relações de forças se estabelecem entre os diferentes agentes que intervêm e a posição que nele ocupam. Segundo Ortega, daí que se possa falar em campo artístico, campo educativo, campo cultural, campo político, campo científico. Os campos são constituídos de produtores, consumidores, distribuidores de bens em estâncias legitimadoras e reguladoras, cujas características, regras e conformação, variam de acordo com a sua história e relação com o campo de poder.

Bourdieu analisou o campo da produção cultural e sua luta pela autonomia e legitimação, e como esta é a inseparável luta que estabelece no setor dominante, quando entende a cultura como uma forma simbólica conectada ao poder, domínio e distinção. Esse alargamento em relação a sua afirmação como área de conhecimento, tende a potencializar e a ampliar a performance naquilo que ela tem como proposta de prática crítica, para promover relações significativas entre sujeitos e contextos. Não corresponde, assim, a uma suposta anulação de conflitos e insucessos, opostamente,  ao abrir mão de estratégias apriorísticas e apaziguadoras.

Cartografias, entrecruzamentos, entrechoques: estes são os campos ou espaços de atuação do Mediador, Artista/ Professor/ Pesquisador?

Espaços de entrecruzamento, entrechoques, recodificações, negociações cartográficas e geopoéticas dos sentidos.

Os contextos, entendidos como categoria abrangente, podem incluir conjuntos de saberes, manifestações culturais, produções artísticas, tradições, fenômenos sociais e naturais, objetos, códigos, repertórios, enfim, tudo aquilo que integra o universo cultural material e imaterial, histórico conceitual, passível de análise, de interpretação e rearticulação.

O Artista/Mediador ou Mediador/Artista/Cartógrafo transita por esses territórios, experimentando estabelecer recortes e investigações em campos e sobre temas de interesse coletivo, desenvolvendo a cada plataforma experienciada, ou plano cartográfico, formas de aproximação e provocação de diálogo entre os sujeitos e o mundo. O processo de mediação proposto por tais práticas cartográficas, colocará em relevo determinados conteúdos e proposições em detrimento de outros, considerando-se a formação e o repertório do Artista/Professor/Cartógrafo. O que está em jogo, é compreender o seu papel de forma alargada, não propriamente como especialista neste ou naquele campo, justamente por nunca perder de vista as zonas de fronteira e intersecção entre os saberes, interterritorialidades de espaços e tempos. É exatamente este o seu campo de atuação e onde agencia os lugares de encontro, ao calcular passagens de operações que se dão entre diversos territórios, espaços, intermeios geopoéticos, estabelecendo assim, cartografias dos sentidos subjetivos no coletivo.

O Artista/Mediador/Cartógrafo é um observador atento das dinâmicas interpessoais que alinhava os modos de perceber dos sujeitos e os objetos com os quais interagem, sendo também um propositor. Ele não fica só nesse lugar, ele é alguém que tem algo a disparar. Por essa razão, as noções de identidade e alteridade, reciprocidade, negociação, deslocamento, recombinação, flexibilidade, significação, reconhecimento, recodificação em rede lhe são tão caras, posto que contribui para o agenciamento de experiências coletivas, como o reexistir, o refundar. Quando algo que designava ‘eu’ vira ‘nós’, temos que rever que sentido que as coisas passam a tomar.  O Mediador/Artista/ Cartógrafo privilegia, assim, a experiência, interação e o compartilhamento.

Articulada por diálogos, negociações e interpretações, acordos e divergências, a experiência da Arte expandida no campo cultural, adquire um valor em si, distanciando-se da perspectiva utilitarista e instrumental que tenderia a reduzi-la à mera condição de transmissora de informações e explicações, que é o que a escola convencional espera do professor.

Permeada por uma ética do “compartrilhamento” [com+par+trilhar], o Artista/Professor/Mediador/Cartógrafo, neste contexto, busca deflagrar e impulsionar situações nas quais os sujeitos envolvidos participem de maneira efetiva e singular das experiências e discussões em processo, expondo e contemplando seus múltiplos pontos de vista, instaurando uma integração alocêntrica. Trago aqui algumas ideias a desenvolvidas por mim e Ana Mae Barbosa acerca da integração alocêntrica, que foge de um centro predeterminado, se organiza por meio de centros emergentes e conta, sobretudo, com a participação do observador/ator para criação de múltiplos centros organizativos. Não existe um centro ou periferia fixos, existe um intercâmbio entre territórios, ou, o que chamamos de interterritorialidade, como se fossem células de um orbital em constante intercâmbio e deslocamento. Parece complicado, mas é esse processo que Ramon Parramon, artista visual e curador de Arte Pública Relacional Contemporânea na Espanha, chama de ações reversíveis, e a que chamamos de interterritorialidade, que vai além da interdisciplinaridade.

Assim, o mediador/artógrafo cria uma pluralidade de falas de movimentos, de deslocamentos que caracterizam a qualidade da dinâmica cartográfica mediadora da experiência, proporcionando efetivos espaços de intercâmbio e alternância de hierarquias entre os diversos interlocutores, instigando a uma escuta atenta e ao exercício de alteridade.”

Essa narrativa é texto, processo, escrita que vai e volta. Parte destas questões estão apontadas e problematizadas na pesquisa de Doutoramento “Derivações da Arte Pública Contemporânea” Escola de Comunicações e Artes da USP e desdobram-se em novas pesquisas e reflexões, imbricadas em outros dois projetos de Pós-Doutorados, respectivamente “Arqueologia da R.U.A.: Realidade Urbana Aumentada”, Instituto de Artes/UNESP e “Cartografias: geopoéticas dos sentidos”, PPG Arte e Cultura Visual UFG, realizados entre os anos de 2010 a 2014. A pesquisa articula diversos âmbitos narrativos, da dilatação, da suspensão, e ao mesmo tempo da processualidade, da colaboração e do compar-trilhamento, sendo permeada pelo vínculo e pela ética. Porque ensino-aprendizagem tem a ver com vínculo e com ética. Não aprendemos ou ensinamos o que não temos interesse, desejo de conhecimento. O processo de conhecimento só existe em uma base de interesse mútuo.  Nossa comunicação se dá na medida da artografia, neste lugar de uma construção narrativa, escrita colaborativa, coletiva e compartilhada. O Artista/Professor/Pesquisador, nesta condição de mediador/cartógrafo, tem seu trabalho ancorado no coletivo, tecido e produzido em conjunto. Não daria para fazer de outro jeito, não só soaria falso como não seria possível, esse tipo de prática implica um estar poroso para os acontecimentos.

Referências bibliográficas

AMARAL, Lilian. Interterritorialidades: passagens, cartografias e imaginários. In: AMARAL, L.; BARBOSA, A. M. [Orgs.] Interterritorialidades: mídias, contextos e educação. São Paulo: Edições SESC SP, 2009, págs. 23-44.

BOURDIEU, Pierre. The Field of Cultural Production. New York: Columbia University Press, 1993.

IRWIN, Rita. A/r/tografia: uma mestiçagem metonímica. In: AMARAL, L.; BARBOSA, A. M. [Orgs.] Interterritorialidades: mídias, contextos e educação. São Paulo: Edições SESC SP, 2009.

ORTEGA, Luz. De los Puentes para los Campos. Reflexiones en torno a la Divulgación de la Ciencia. Razón y Palabra, Número 32, Abril-mayo, 2003 en http://www.razonypalabra.org.mx/anteriores/n32/lortega.html

PARRAMON. R. (Org.). Arte, Experiência e Territórios em Processo. Espaço Público / Espaço Social. Calaf | Manresa: IDENSITAT Asociació de Arte Contemporánea, 2007.

Lilian Amaral é artista visual, curadora e pesquisadora em Arte Urbana Contemporânea. Pós-Doutora em Arte, Ciência e Tecnologia pelo Instituto de Artes / UNESP e Universidade de Barcelona/ES. Pós-Doutora em Arte e Cultura Visual pelo PPG Arte e Cultura Visual UFG, Bolsa Capes PNPD. Doutora e Mestre em Artes pela Escola de Comunicações e Artes da USP e Universidade Complutense de Madrid. Dirige a Rede Internacional de Educação Patrimonial em contexto ibero-americano –www.oepe.es  MediaLab BR/UFG.

lilianamaral@uol.com.br

Ilustrações de Karina Puente