Brasilidades

o Brasil profundo, a cultura popular identitária

Samba, memória e mediação

As novas narrativas da cultura popular no espaço urbano

por Sallisa Vasco

Da edição 17 - Recriação da Memória
astrolábio nº 21 ano II set. 2017

O Astrolábio entrevistou Georgie Echeverri Vásquez, o comunicador Social colombiano e doutorando em Psicologia Social pela UERJ, que atua como mediador cultural do Museu do Samba.

O samba conta histórias, traz informações tradicionais da língua e da cultura, é popular e ritualístico, por isso é manifestação da memória, revelada em ritmos e cantos. Como você vê a relação dos sambistas populares com a noção de uma Cultura Viva?

Em 20 de novembro de 2007, quando o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico (IPHAN) inscreveu as matrizes do samba carioca como patrimônio cultural imaterial do Brasil no Livro de Registro das Formas de Expressão, quis destacar precisamente esse elemento da Cultura Viva que você menciona, que deve ser difundido e salvaguardado porque se trata de uma riqueza coletiva.

Nas nossas mediações culturais no Museu do Samba acostumamos frisar que embora o carnaval seja considerado o maior espetáculo a céu aberto do planeta, ele sozinho não traduz a complexidade do samba. As matrizes do samba carioca (o partido-alto, o samba de terreiro e o samba-enredo) e as expressões que as caracterizam (música, poesia, dança, estética, religião, gastronomia) nos falam de uma identidade cultural dinâmica, que podemos definir como “circuito comunicacional” aberto, alimentado pelas representações sociais de uma memória coletiva, que está em evolução permanente.

Os sambistas populares se inserem nesse circuito comunicacional, que ao ser aberto, também está permeado por lógicas como o mercado e mesmo a hibridação, conceito exposto por autores dos Estudos Culturais como Néstor García Canclini, Stuart Hall e George Yúdice.

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De que modo as histórias de vida dos bambas dialogam com os sambistas e moradores que ocupam hoje esse mesmo território?

Você faz alusão ao território e aqui é importante lembrarmos que existem dois dimensões em um território (Haesbaert, 2007): uma objetiva, que está relacionada com a dominação político-econômica de um espaço, e outra subjetiva, que tem a ver com a identidade territorial dos sujeitos que moram nesse espaço.

Assumindo que estamos fazendo alusão à segunda dimensão, ao samba como território de construção, manutenção e atualização da memória cultural, o Museu do Samba faz com que essas memórias orais estejam vigentes. Contamos com um acervo de mais de 100 depoimentos de homens e mulheres bambas que relatam suas histórias no intuito de construírem uma narrativa partilhada e polifônica, em diálogo com o que vem se denominando nova museologia (Desvallés & Mairesse, 2013), isto é, aquela que preconiza que a missão de um museu deve estar para além dos objetos, pois envolve práticas a eles associadas e as comunidades a que servem.

Seguindo essa mesma reflexão, de que modo o Museu do Samba encara essa relação da memória urbana com a história de vida do Cartola e seu tempo, por exemplo?

A nossa missão como Museu do Samba é sermos o maior centro de referência e valorização do samba no Brasil. Uma das estratégias com que contamos é a educação patrimonial.

O nosso processo educativo está embasado no enfoque psicossocial do grupo operativo (o ECRO) proposto por Enrique Pichon-Rivière, que mostra que é possível gerarmos mudanças dentro de um grupo (seja ele qual for: crianças de creche, alunos de escola pública e particular, etc) ao concentrarmos no poder transformador da tarefa cooperativa. Daí que através da metodologia da educação experiencial (o aprender-fazendo) e de alguns elementos da comunicação simbólica, consigamos que as crianças e os jovens se aproximem das histórias de vida e do legado de homens como Angenor de Oliveira, conhecido como Cartola.

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Há alguns meses atrás uma turista do Sul do Brasil nos perguntava, durante uma mediação, por que o Museu do Samba não ficava em Copacabana, tendo em vista que ali teria uma maior arrecadação de ingressos, o que favoreceria sua sustentabilidade econômica. A nossa resposta foi clara: o Museu do Samba nasceu no morro, que é berço do samba carioca, e que esteja aqui contribui para a valorização desse berço que é a favela. Acontece algo similar ao fazermos alusão ao Cartola nas nossas mediações: construímos uma narrativa não mitológica dele, humana, atingível, de um homem simples e talentoso que a pesar das dificuldades pessoais e sociais do seu tempo, acreditou nos seus sonhos e conseguiu ser o ícone que hoje ele é.

Não é por acaso que na nossa Exposição dos 100 Anos do Samba tenhamos um trecho de Fiz por você o que pude, fazendo alusão ao samba: “guerreei na juventude, fiz por você o que pude (…), continuam nossas lutas, podam-se os galhos, colhem-se as frutas e outra vez se semeia e no fim desse labor surge (…), jovem de grande valor com o mesmo sangue na veia”.

Participantes de Pontos de Cultura e de ações locais da cidade, que compõem o Coletivo Rota Rebouças, fizeram vários encontros este ano para refletir sobre a cultura viva e os processos de mediação cultural no espaço urbano, processo que produziu os “expedições peripatéticas” e culminaram com a oficina a céu aberto “Por onde nosso samba já passou”, como foi essa experiência para você e como ela se relaciona com o teu trabalho no Museu do Samba?

Sem sombra de dúvida, foi uma das experiências mais marcantes para mim, não só como mediador cultural, mas como estrangeiro que vai além do flâneur ou espectador. A partir de um exercício de pesquisa colaborativa, idealizamos uma oficina a céu aberto baseada na educação experiencial. Em outras palavras, essa oficina materializava aquele provérbio de origem chinesa que o Museu do Samba assume hoje como princípio pedagógico norteador da educação patrimonial: “diga-me e esquecerei; mostre-me e lembrarei; envolva-me e aprendei”.

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Foi marcante por duas razões: porque aquilo que eu acostumo transformar em narrativa viva no Museu do Samba era passível de ser vivido (não só narrado) na rua, como faziam os discípulos de Aristóteles, que aprendiam enquanto passeavam (daí o termo peripatético). A outra razão que me mobilizou, especialmente ao estudar a história da Praça Onze que hoje não existe mais, foi evidenciar que a nossa história como cidade (eu digo nossa porque o Rio de Janeiro é minha cidade também) está construída sobre o apagamento da memória. Eis aqui uma razão para desempenhar com mais orgulho ainda meu papel como mediador cultural no Museu do Samba.

Como é uma vivência do samba com estrangeiros no Museu do Samba:

Veja também a História de vida de Nathan Amaral.  Trata-se de um jovem da Mangueira, que através da orquestra de violinos do Centro Cultural Cartola (hoje Museu do Samba) descobriu seu talento. Hoje está na Áustria, após ser aceito em primeiro lugar em uma das escolas de música mais renomadas do mundo. A dele é uma história maravilhosa que reforça a nossa missão institucional e que merece ser contada.