Arte/Educação

memória, conceitos, reflexões e práticas da Educação através da Arte

Os olhos do não visto

Gandhy Piorski reflete sobre a simbologia e a infância do povo Mursi, a partir de ensaio fotográfico de Hans Silvester.

por Gandhy Piorski

Da edição 01 - Arte e Cultura Popular

A CRIANÇA DIVINA

Nossa cau­sa é um se­gre­do no se­gre­do,
o se­gre­do de al­gu­ma coi­sa que per­ma­ne­ce ve­la­do,
um se­gre­do que ape­nas ou­tro se­gre­do po­de en­si­nar:
é um se­gre­do so­bre o se­gre­do que se sa­tis­faz de um se­gre­do.
(Imã Jáfar Sãdiq)

[…] Retiro se­me­lhan­ças de pes­so­as com ár­vo­res
de pes­so­as com rãs
de pes­so­as com pe­dras
etc etc.
Retiro se­me­lhan­ças de ár­vo­res co­mi­go.
Não te­nho ha­bi­li­da­de pra cla­re­zas.
Preciso ob­ter sa­be­do­ria ve­ge­tal.
(Sabedoria ve­ge­tal é re­ce­ber com na­tu­ra­li­da­de uma rã no ta­lo).
E quan­do es­ti­ver apro­pri­a­do pa­ra pe­dra, te­rei tam­bém
sa­be­do­ria mi­ne­ral.
(Manoel de Barros)

 

Diálogos Sustentáveis

 

 

Como po­de o in­fu­so in­vi­sí­vel fazer-se olhos, ver-nos de um olhar tão an­ti­go, im­pes­so­al, san­ti­fi­ca­do, sal­vo no mis­té­rio? Poderá um po­vo das dis­tân­ci­as do mun­do, dos con­fins da so­li­dão par­tir de cons­te­la­ções da re­mi­nis­cên­cia com uma ex­pe­ri­ên­cia tão pre­nhe de in­te­gri­da­de? Como es­te­ti­zar a ori­gem da vi­da em tex­tu­ras de pri­mor­di­a­li­da­de e gra­fis­mos do pa­raí­so? É pos­sí­vel vê-se ain­da tão sim­bi­o­ti­za­do com as flo­res, os ba­gos, as se­men­tes, os ca­chos do amor na­tu­ral, da sen­su­a­li­da­de dos un­guen­tos e sei­vas? Em qual idí­lio vi­ve um po­vo que ador­na su­as cri­an­ças com tão ri­co ma­te­ri­al pic­tó­ri­co?

Hans Silvester, fo­tó­gra­fo ale­mão pro­du­ziu uma sé­rie de li­vros de ar­te com ima­gens do po­vo Mursi que vi­ve no Vale do Omo na Etiópia. Nesse tex­to, re­cor­te de um ar­ti­go es­cri­to co­mo pu­bli­ca­ção da ca­dei­ra de História das Religiões do Programa de Pós Graduação de Ciências das Religiões da UFPB, exa­mi­nei uma das obras de Silvester: Natural Fashion: Tribal Decoration from Africa. Minha in­ten­são foi fa­zer um tra­ba­lho her­me­nêu­ti­co dos sím­bo­los con­ti­dos no en­saio fo­to­grá­fi­co de Hans Silvester acer­ca dos Mursi. Não bus­quei ava­li­ar a cul­tu­ra Mursi, ou os porquês mi­to­ló­gi­cos, re­li­gi­o­sos ou es­té­ti­cos de seus mo­dos de ador­no na­tu­ral. Interessou-me mer­gu­lhar nos res­va­los sim­bó­li­cos que nas­cem da obra de Hans Silvester acer­ca do po­vo Mursi, de in­ves­ti­gar quais for­ças sim­bó­li­cas o cap­tu­ra­ram – na sua in­ves­ti­ga­ção fo­to­grá­fi­ca – pa­ra al­can­çar o que Karl Kerenyi cha­mou de a “es­sên­cia da mi­to­lo­gia”, ou o in­flu­xo pri­mei­ro do pen­sa­men­to re­li­gi­o­so.

Criança pri­mor­di­al e na­tu­re­za. Poderíamos co­me­çar por aqui. Mas não se­rá es­te o pri­mei­ro e sim o úl­ti­mo pon­to de nos­sas con­si­de­ra­ções. Antes pre­ci­sa­mos de um por­to, de apor­tes pa­ra nos­sa pro­po­si­ção her­me­nêu­ti­ca. Comecemos por al­guns dos prin­ci­pais her­me­neu­tas do sím­bo­lo no cír­cu­lo de Eranos. O Historiador da Religião Karl Kerényi com seu li­vro a Criança Divina: Uma Introdução à Essência da Mitologia, es­cri­to jun­ta­men­te com C. Jung, nos aju­da­rá a des­ve­lar o no­ve­lo dos mi­to­lo­ge­mas que nos olham e a nós lêem nas ima­gens do ar­tis­ta. Mircea Eliade nas su­as obras Tratado de História das Religiões e Mefistófelis e o Andrógino pa­vi­men­ta­rão nes­te tra­ba­lho os ca­mi­nhos fun­da­men­tais de lei­tu­ra das fun­ções de am­bi­gui­da­de e sín­te­se do mun­do po­lar das ima­gens no pen­sa­men­to re­li­gi­o­so.

Santiago Kovadloff com seu Silêncio Primordial se­rá nos­so apor­te en­saís­ti­co pa­ra uma fi­lo­so­fia do si­lên­cio que tra­duz o co­la­men­to en­tre o pic­tó­ri­co e o in­vi­sí­vel, en­tre a lin­gua­gem das co­res, sua luz e o in­di­zí­vel. Com as de­vi­das di­fe­ren­ci­a­ções de pers­pec­ti­va teó­ri­ca Kovadloff nos au­xi­li­a­rá com seu olhar fe­no­me­no­ló­gi­co acer­ca da pin­tu­ra. Por fim Schopehauer nos gui­a­rá com sua Metafísica do Belo in­di­can­do pas­sos pa­ra um co­nhe­ci­men­to que não po­de ser co­mu­ni­ca­do a não ser pe­la ar­te, o co­nhe­ci­men­to mais pro­fun­do da es­sên­cia do mun­do. Diz Schopenhauer (2003): “A me­ta­fí­si­ca do Belo, en­tre­tan­to, in­ves­ti­ga a es­sên­cia ín­ti­ma da be­le­za, tan­to no que diz res­pei­to ao su­jei­to que pos­sui a sen­sa­ção do be­lo quan­to ao ob­je­to que a oca­si­o­na”.

Queremos ape­nas vol­tar nos­sa vi­são pa­ra o exa­me da obra de um ar­tis­ta que mer­gu­lhou no ins­ti­gan­te mun­do de um po­vo que se ves­te de na­tu­re­za, que adorna-se de na­tu­re­za, que bus­ca no uni­ver­so na­tu­ral sua ves­ti­men­ta, nu­ma tra­du­ção es­té­ti­ca re­fi­na­da, sim­bió­ti­ca, de jun­tu­ra de sua pe­le com a pe­le da na­tu­re­za, de seus cor­pos com os cor­pos da na­tu­re­za. Inúmeras se­ri­am as abor­da­gens se bus­cás­se­mos uma lei­tu­ra an­tro­po­ló­gi­ca do po­vo ou uma pers­pec­ti­va es­té­ti­ca e uti­li­tá­ria de sua ar­te.

Nos des­per­ta o in­te­res­se, em quan­do ve­mos, de bus­car os porquês de tão re­fi­na­da com­po­si­ção de or­na­men­tos pa­ra uso diá­rio. Ou mes­mo co­nhe­cer mais es­te po­vo etío­pe que vi­ve gra­ves pro­ble­mas am­bi­en­tais e con­fli­tos por ter­ri­tó­rio.

Como nos­sa in­ves­ti­ga­ção es­tá no fenô­me­no fo­to­grá­fi­co, no olhar do fo­tó­gra­fo, em seu mi­to go­ver­nan­te no re­gis­tro da ima­gem, de­ve­mos fa­lar das ima­gens. Ater-nos a elas. Mas, em ins­tan­tes de li­vra­men­to, pa­ra me­lhor en­rai­zar nos­so tra­ba­lho, re­cor­rer a al­gu­mas in­for­ma­ção cul­tu­rais em tor­no dos Mursi da­das pe­lo pró­prio Silvester.

O que nos sal­ta co­mo im­pres­são qua­se ab­so­lu­ta em to­do o en­saio fo­to­grá­fi­co é o es­tra­nha­men­to ou o fas­cí­nio que nos in­ti­ma (tan­to pa­ra o ín­ti­mo da ima­gem quan­to pa­ra uma con­vo­ca­ção de nos­sa in­te­ri­o­ri­da­de) pa­ra o en­cai­xe, a jun­tu­ra en­tre cor­po e na­tu­re­za. Esta jun­tu­ra se dá por uma com­po­si­ção harmô­ni­ca, es­ti­lís­ti­ca e ori­gi­nal. Os Mursi se un­tam de ves­tes no­vas con­ti­nu­a­men­te. Assim que de­se­jam vão ao seu “guarda-roupas na­tu­ral” (SILVESTER, 2009) e cri­am num des­po­ja­men­to de con­fi­an­ça e re­co­nhe­ci­men­to pro­fun­do das for­mas da na­tu­re­za, su­as rou­pas co­la­das em seus cor­pos. Assentam a na­tu­re­za em seus cor­pos nu­ma es­te­ti­za­ção bio-mimética, que es­pe­lha a si­ner­gia in­dis­so­lú­vel en­tre o ho­mem e o cos­mos, o cor­po e o am­bi­en­te, o eu e o mun­do.

Como se os Mursi, es­te po­vo que quer o be­lo, nos con­tas­sem atra­vés de su­as cri­an­ças ves­ti­das de vi­da, o mi­to­lo­ge­ma da cri­an­ça di­vi­na, as pri­mei­ras his­tó­ri­as do cos­mos, a inau­gu­ra­ção mais pri­mei­ra que re­ve­la a ori­gem das ori­gens por de­trás do ho­mem e da vi­da. Unificando ho­mem e flo­ra em tal cum­pli­ci­da­de, em tal con­si­de­ra­ção es­té­ti­ca (SCHOPENHAUER, 2003), que nos le­va ao fun­da­men­to, ao arqué­ti­po da fun­da­men­ta­ção úni­ca e co­mum a to­dos, da qual nos fa­la Kerényi (2011). Assim as ima­gens de Silvester em­bar­cam a nós no per­cur­so mi­to­ló­gi­co da inau­gu­ra­ção do mun­do. Retratam uma cos­mo­go­nia en­gen­dra­da, fun­da­da no pró­prio cor­po.

O cor­po co­mo fun­da­men­to es­pa­ci­al da ori­gem; não a ci­da­de e seu mi­to fun­da­dor, o so­lo sa­gra­do do tem­plo, as man­da­las dos po­vos, não um mi­to es­pe­cí­fi­co do nas­ci­men­to de um deus pri­mei­ro. Sim o cor­po co­mo so­lo, lu­gar, re­a­li­za­ção cos­mogô­ni­ca. No en­saio de Silvester o cor­po é o ce­ri­mo­ni­al da vi­da. Os olha­res des­tas fo­to­gra­fi­as são olha­res do in­vi­sí­vel, do in­di­zí­vel. Há um en­car­na­men­to do mis­té­rio no cor­po.

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Como afir­ma Jung (2011), as re­a­li­da­des das ori­gens ex­pres­sam “os pres­sen­ti­men­tos ex­tre­mos da cons­ci­ên­cia, e a in­tui­ção mais al­ta do es­pí­ri­to”. Deste mo­do nas ima­gens de Silvester é pos­sí­vel cap­tar a fu­são dos pres­sen­ti­men­tos ori­gi­nais com a cons­ci­ên­cia pre­sen­te. Tal es­te­ti­za­ção Mursi fin­cou o fo­tó­gra­fo, em seu mo­men­to de cri­a­ção, no mi­to­lo­ge­ma dos ex­tre­mos, das ex­ter­ma­du­ras do ser. Fê-lo insinuar-nos, pe­ran­te a ar­te Mursi, de­se­jos po­de­ro­sos de to­ta­li­za­ção. Arte que na­da nos dei­xa a de­se­jar quan­do en­con­tra­mos seus es­ti­los em pin­to­res co­mo Paul Klee, Miró e Picasso. Quando a ar­te, es­pe­ci­al­men­te a pin­tu­ra abs­tra­ta com sua pre­dis­po­si­ção mai­or à trans­cen­dên­cia as­sal­ta o pin­tor ele entrega-se a “pin­tar pa­ra que o in­vi­sí­vel per­mi­ta que as su­as im­pres­sões se­jam sen­ti­das no vi­sí­vel. É dis­so que se tra­ta. Invisibilidade e si­lên­cio são, aqui, sinô­ni­mos per­fei­tos. O Invisível e o in­di­zí­vel são cor­res­pon­den­tes em sua exi­gên­cia uní­vo­ca fei­ta ao ver­da­dei­ro pin­tor pe­lo seu pró­prio es­pí­ri­to” (KOVADLOFF, 2003).

Silvester vê o rá­pi­do e des­po­ja­do mo­do de pin­tar dos Mursi co­mo um dos tra­ços de sua sin­gu­la­ri­da­de ar­tís­ti­ca. Talvez Jackson Pollock en­con­tras­se aí sua pá­tria cri­a­ti­va. Entretanto, pe­la via pic­tó­ri­ca, po­de­mos ver ain­da o ful­gor cos­mogô­ni­co no cor­po dos Mursi. Kovadloff (2003) nos en­si­na que a cons­ta­ta­ção do si­lên­cio e do in­di­zí­vel na pin­tu­ra es­tá na obs­tru­ção do ob­je­to. Não se bus­ca a re­pre­sen­ta­ção e a imo­bi­li­da­de da for­ma já exis­ten­te. Pois as­sim liberta-se a ex­pe­ri­ên­cia pa­ra o cam­po da in­ter­pre­ta­ção e não mais da re­pre­sen­ta­ção. O mo­vi­men­to per­ma­ne­ce vi­vo na obra e o in­vi­sí­vel manifesta-se. Interpretar se­gun­do Kovadloff é bus­car di­zer “al­go de uma coi­sa en­quan­to ela es­tá em mo­vi­men­to” (KOVADLOFF, 2003), li­vre do pro­tó­ti­po.

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Os Mursi, se­gun­do Silvester, tro­cam de “rou­pa” até três ve­zes por dia. Não tem o gos­to do es­tá­ti­co, não pro­to­ti­zam sua ar­te, entregam-se à dis­po­ni­bi­li­da­de. Fazem do cor­po ape­nas mol­du­ra cri­a­ci­o­nal. O cor­po é sua te­la e sua mol­du­ra.

Quais as con­sequên­ci­as dis­so pa­ra uma fe­no­me­no­lo­gia da pin­tu­ra?

Não nos ca­be res­pon­der es­ta per­gun­ta. Entretanto a for­ma é um fun­da­men­to que o ho­mem não po­de aban­do­nar. Assim a bus­ca na ex­pe­ri­ên­cia ar­tís­ti­ca, pe­la for­ma, remeter-se àqui­lo que a trans­cen­de. E no sen­ti­do em que abor­da­mos, e que ago­ra se dis­tan­cia da con­cei­tu­a­ção psi­ca­na­lí­ti­ca de Kovadloff, a ma­ni­fes­ta­ção des­te in­di­zí­vel, no tra­ba­lho de Silvester, inspira-nos às ori­gens mais re­cu­a­das, à pri­mei­ra cri­a­ção.

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Fonte: Página de Gandhy Piorski no fa­ce­bo­ok.

Fotografias de Hans Silvester

REFERÊNCIAS

ELIADE, Mircea. Mefistófeles e o an­dró­gi­no: Comportamentos re­li­gi­o­sos e va­lo­res es­pi­ri­tu­ais não-europeus. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. (Coleção Tópicos).

______. Tratado de his­tó­ria das re­li­giões. 3 ed. Porto: Edições Asa, 1997.

JUNG, C.G; KERÉNYI, Karl. A cri­an­ça di­vi­na: uma in­tro­du­ção à es­sên­cia da mi­to­lo­gia. Petrópolis: Vozes, 2011. (Coleção Reflexões Junguianas).

KOVADLOFF, Santiago. O si­lên­cio pri­mor­di­al. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

SCHOPENHAUER, Arthur. Metafísica do be­lo. São Paulo: Editora UNESP, 2003.

SILVESTER, Hans. Natural Fashion: tri­bal de­co­ra­ti­on from Africa. London: Thames & Hudson, 2009.