Arte/Educação

memória, conceitos, reflexões e práticas da Educação através da Arte

Os olhos do não visto

Gandhy Piorski reflete sobre a simbologia e a infância do povo Mursi, a partir de ensaio fotográfico de Hans Silvester.

por Gandhy Piorski

Da edição 01 - Arte e Cultura Popular
astrolábio nº 21 ano II set. 2017

A CRIANÇA DIVINA

Nossa causa é um segredo no segredo,
o segredo de alguma coisa que permanece velado,
um segredo que apenas outro segredo pode ensinar:
é um segredo sobre o segredo que se satisfaz de um segredo.
(Imã Jáfar Sãdiq)

[…] Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo).
E quando estiver apropriado para pedra, terei também
sabedoria mineral.
(Manoel de Barros)

 

Diálogos Sustentáveis

 

 

Como pode o infuso invisível fazer-se olhos, ver-nos de um olhar tão antigo, impessoal, santificado, salvo no mistério? Poderá um povo das distâncias do mundo, dos confins da solidão partir de constelações da reminiscência com uma experiência tão prenhe de integridade? Como estetizar a origem da vida em texturas de primordialidade e grafismos do paraíso? É possível vê-se ainda tão simbiotizado com as flores, os bagos, as sementes, os cachos do amor natural, da sensualidade dos unguentos e seivas? Em qual idílio vive um povo que adorna suas crianças com tão rico material pictórico?

Hans Silvester, fotógrafo alemão produziu uma série de livros de arte com imagens do povo Mursi que vive no Vale do Omo na Etiópia. Nesse texto, recorte de um artigo escrito como publicação da cadeira de História das Religiões do Programa de Pós Graduação de Ciências das Religiões da UFPB, examinei uma das obras de Silvester: Natural Fashion: Tribal Decoration from Africa. Minha intensão foi fazer um trabalho hermenêutico dos símbolos contidos no ensaio fotográfico de Hans Silvester acerca dos Mursi. Não busquei avaliar a cultura Mursi, ou os porquês mitológicos, religiosos ou estéticos de seus modos de adorno natural. Interessou-me mergulhar nos resvalos simbólicos que nascem da obra de Hans Silvester acerca do povo Mursi, de investigar quais forças simbólicas o capturaram – na sua investigação fotográfica – para alcançar o que Karl Kerenyi chamou de a “essência da mitologia”, ou o influxo primeiro do pensamento religioso.

Criança primordial e natureza. Poderíamos começar por aqui. Mas não será este o primeiro e sim o último ponto de nossas considerações. Antes precisamos de um porto, de aportes para nossa proposição hermenêutica. Comecemos por alguns dos principais hermeneutas do símbolo no círculo de Eranos. O Historiador da Religião Karl Kerényi com seu livro a Criança Divina: Uma Introdução à Essência da Mitologia, escrito juntamente com C. Jung, nos ajudará a desvelar o novelo dos mitologemas que nos olham e a nós lêem nas imagens do artista. Mircea Eliade nas suas obras Tratado de História das Religiões e Mefistófelis e o Andrógino pavimentarão neste trabalho os caminhos fundamentais de leitura das funções de ambiguidade e síntese do mundo polar das imagens no pensamento religioso.

Santiago Kovadloff com seu Silêncio Primordial será nosso aporte ensaístico para uma filosofia do silêncio que traduz o colamento entre o pictórico e o invisível, entre a linguagem das cores, sua luz e o indizível. Com as devidas diferenciações de perspectiva teórica Kovadloff nos auxiliará com seu olhar fenomenológico acerca da pintura. Por fim Schopehauer nos guiará com sua Metafísica do Belo indicando passos para um conhecimento que não pode ser comunicado a não ser pela arte, o conhecimento mais profundo da essência do mundo. Diz Schopenhauer (2003): “A metafísica do Belo, entretanto, investiga a essência íntima da beleza, tanto no que diz respeito ao sujeito que possui a sensação do belo quanto ao objeto que a ocasiona”.

Queremos apenas voltar nossa visão para o exame da obra de um artista que mergulhou no instigante mundo de um povo que se veste de natureza, que adorna-se de natureza, que busca no universo natural sua vestimenta, numa tradução estética refinada, simbiótica, de juntura de sua pele com a pele da natureza, de seus corpos com os corpos da natureza. Inúmeras seriam as abordagens se buscássemos uma leitura antropológica do povo ou uma perspectiva estética e utilitária de sua arte.

Nos desperta o interesse, em quando vemos, de buscar os porquês de tão refinada composição de ornamentos para uso diário. Ou mesmo conhecer mais este povo etíope que vive graves problemas ambientais e conflitos por território.

Como nossa investigação está no fenômeno fotográfico, no olhar do fotógrafo, em seu mito governante no registro da imagem, devemos falar das imagens. Ater-nos a elas. Mas, em instantes de livramento, para melhor enraizar nosso trabalho, recorrer a algumas informação culturais em torno dos Mursi dadas pelo próprio Silvester.

O que nos salta como impressão quase absoluta em todo o ensaio fotográfico é o estranhamento ou o fascínio que nos intima (tanto para o íntimo da imagem quanto para uma convocação de nossa interioridade) para o encaixe, a juntura entre corpo e natureza. Esta juntura se dá por uma composição harmônica, estilística e original. Os Mursi se untam de vestes novas continuamente. Assim que desejam vão ao seu “guarda-roupas natural” (SILVESTER, 2009) e criam num despojamento de confiança e reconhecimento profundo das formas da natureza, suas roupas coladas em seus corpos. Assentam a natureza em seus corpos numa estetização bio-mimética, que espelha a sinergia indissolúvel entre o homem e o cosmos, o corpo e o ambiente, o eu e o mundo.

Como se os Mursi, este povo que quer o belo, nos contassem através de suas crianças vestidas de vida, o mitologema da criança divina, as primeiras histórias do cosmos, a inauguração mais primeira que revela a origem das origens por detrás do homem e da vida. Unificando homem e flora em tal cumplicidade, em tal consideração estética (SCHOPENHAUER, 2003), que nos leva ao fundamento, ao arquétipo da fundamentação única e comum a todos, da qual nos fala Kerényi (2011). Assim as imagens de Silvester embarcam a nós no percurso mitológico da inauguração do mundo. Retratam uma cosmogonia engendrada, fundada no próprio corpo.

O corpo como fundamento espacial da origem; não a cidade e seu mito fundador, o solo sagrado do templo, as mandalas dos povos, não um mito específico do nascimento de um deus primeiro. Sim o corpo como solo, lugar, realização cosmogônica. No ensaio de Silvester o corpo é o cerimonial da vida. Os olhares destas fotografias são olhares do invisível, do indizível. Há um encarnamento do mistério no corpo.

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Como afirma Jung (2011), as realidades das origens expressam “os pressentimentos extremos da consciência, e a intuição mais alta do espírito”. Deste modo nas imagens de Silvester é possível captar a fusão dos pressentimentos originais com a consciência presente. Tal estetização Mursi fincou o fotógrafo, em seu momento de criação, no mitologema dos extremos, das extermaduras do ser. Fê-lo insinuar-nos, perante a arte Mursi, desejos poderosos de totalização. Arte que nada nos deixa a desejar quando encontramos seus estilos em pintores como Paul Klee, Miró e Picasso. Quando a arte, especialmente a pintura abstrata com sua predisposição maior à transcendência assalta o pintor ele entrega-se a “pintar para que o invisível permita que as suas impressões sejam sentidas no visível. É disso que se trata. Invisibilidade e silêncio são, aqui, sinônimos perfeitos. O Invisível e o indizível são correspondentes em sua exigência unívoca feita ao verdadeiro pintor pelo seu próprio espírito” (KOVADLOFF, 2003).

Silvester vê o rápido e despojado modo de pintar dos Mursi como um dos traços de sua singularidade artística. Talvez Jackson Pollock encontrasse aí sua pátria criativa. Entretanto, pela via pictórica, podemos ver ainda o fulgor cosmogônico no corpo dos Mursi. Kovadloff (2003) nos ensina que a constatação do silêncio e do indizível na pintura está na obstrução do objeto. Não se busca a representação e a imobilidade da forma já existente. Pois assim liberta-se a experiência para o campo da interpretação e não mais da representação. O movimento permanece vivo na obra e o invisível manifesta-se. Interpretar segundo Kovadloff é buscar dizer “algo de uma coisa enquanto ela está em movimento” (KOVADLOFF, 2003), livre do protótipo.

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Os Mursi, segundo Silvester, trocam de “roupa” até três vezes por dia. Não tem o gosto do estático, não prototizam sua arte, entregam-se à disponibilidade. Fazem do corpo apenas moldura criacional. O corpo é sua tela e sua moldura.

Quais as consequências disso para uma fenomenologia da pintura?

Não nos cabe responder esta pergunta. Entretanto a forma é um fundamento que o homem não pode abandonar. Assim a busca na experiência artística, pela forma, remeter-se àquilo que a transcende. E no sentido em que abordamos, e que agora se distancia da conceituação psicanalítica de Kovadloff, a manifestação deste indizível, no trabalho de Silvester, inspira-nos às origens mais recuadas, à primeira criação.

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Fonte: Página de Gandhy Piorski no facebook.

Fotografias de Hans Silvester

REFERÊNCIAS

ELIADE, Mircea. Mefistófeles e o andrógino: Comportamentos religiosos e valores espirituais não-europeus. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. (Coleção Tópicos).

______. Tratado de história das religiões. 3 ed. Porto: Edições Asa, 1997.

JUNG, C.G; KERÉNYI, Karl. A criança divina: uma introdução à essência da mitologia. Petrópolis: Vozes, 2011. (Coleção Reflexões Junguianas).

KOVADLOFF, Santiago. O silêncio primordial. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

SCHOPENHAUER, Arthur. Metafísica do belo. São Paulo: Editora UNESP, 2003.

SILVESTER, Hans. Natural Fashion: tribal decoration from Africa. London: Thames & Hudson, 2009.