Arte/Educação

memória, conceitos, reflexões e práticas da Educação através da Arte

Sobre Cultura Popular e Educação

Possibilidades educativas nas tradições

por Cáscia Frade

Da edição 18 - Tecidos e tessituras da Cultura Popular
astrolábio nº 21 ano II set. 2017

O tema desse artigo é rico e denso, facultando múltiplas abordagens aos estudiosos. Minha intenção, portanto, não é tentar esgotar o assunto mas ressaltar alguns aspectos que me parecem significativos na conexão desses campos de conhecimento.

Nesse sentido, enfocarei três itens cuja sequência não obedece a nenhuma razão que não seja a que melhor me parece para organização desse pequeno texto.  São eles: a pesquisa, a inserção da cultura popular na escola e o Mestre popular.

Em relação à pesquisa, inicio relembrando um trabalho da profª. Madalena Diégues (1984), que buscou as múltiplas visões que as professoras e as mães constroem sobre a educação e a avaliação que fazem dos alunos e de filhos-alunos. Para ambas, eles são caracterizados como “comportados, atentos, aplicados, inteligentes”, ou, ao contrário, “preguiçosos, rebeldes, distraídos, irresponsáveis”, de acordo com o comportamento que tinham frente a programação escolar. O que me parece interessante na pesquisa dessa professora é que a proposta escolar não foi colocada em questão por nenhuma de suas informantes.

caxambu_salgueiroPenso que podemos aproximar esse relato com nossas rotinas em sala de aula: quantas vezes classificamos nossos alunos como “rebeldes, agressivos, ignorantes”, diante de propostas que elaboramos, nós, que estudamos tanto, compramos livros, conhecemos tantas técnicas pedagógicas?  Com frequência não costumamos indagar as verdadeiras causas que motivam os comportamentos em sala de aula. Muitas podem ser arroladas mas, neste momento gostaria de ressaltar apenas uma, a que Paulo Freire chamou de “educação bancária”: utilizando de material extraído unicamente de livros didáticos, transformamos nossos alunos em depósito de informações que, para eles, não apresentam nenhuma significação. E porque não têm significado? Porque são destituídas de sentido de vida, revelando-se descartáveis.

Como contornar esse problema? Minha sugestão mais imediata é que o professor busque identificar o conhecimento de que seus alunos são portadores e realize com eles um aprendizado vivenciado. Que realize pesquisa participativa, tendo no educando o companheiro de trabalho e o informante. Que tenha sensibilidade para ver e ouvir as experiências que, num feixe de representações, revelam o que os alunos sentem, pensam e criam no campo da cultura e da educação.

E a inserção dos saberes identificados no âmbito da educação? De um modo geral, as práticas vigentes no universo da cultura popular são entendidas como propícias às comemorações festivas, recreação, momentos de descontração, ingredientes para realização do calendário escolar (lembremos o Dia do Folclore, 22 de agosto). Dificilmente, os planos de aula do dia-a dia abordam aspectos populares presentes na linguagem, na literatura, na geometria, na geografia, na história, na música, nas artes visuais, etc. E as ignoradas expressões populares são um manancial desses conhecimentos. Vejamos o caso das Danças Tradicionais: nelas percebemos aspectos históricos e sua correlação com a geografia; linguagem, que a organiza por meio de textos com termos específicos; geometria, concretizada nas formações coreográficas que apresentam círculos únicos ou concêntricos, linhas paralelas, linhas sinuosas; música , com seus elementos teóricos como fraseados melódicos, pulsações, compassos simples e compostos, ordenação coreográfica, além do instrumental que enriquece e ordena as melodias que envolvem os movimentos dos dançadores; artes visuais, presente nos adereços, nas indumentárias ,na confecção de instrumentos musicais e outros elementos que possam estar presentes na manifestação. Podemos ainda ressalvar que a sociabilidade seja talvez, o elemento que vai facultar a própria existência das Danças pois enreda homens e símbolos numa expressão artística que fornece a dimensão da vida social pois, cada unidade é fundamental ao conjunto que, por sua vez, concretiza a realização de cada unidade. Essa listagem poderia se alongar ao infinito, levando a perceber as inúmeras e ricas facetas presentes em cada expressão popular, o que demonstra a existência de incontáveis possibilidades educativas nas tradições.

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E o Mestre popular, como se caracteriza? Disse-me uma vez o Mestre Geraldo Teodoro, da Folia de Reis da Penha, RJ :

 “Conforme se fala por ai, mestre e´ quem sabe e ensina aos outros, dentro da escola. Mas mestre é também quem nunca foi à escola, sabe e ensina aos outros”.

Sobre essa afirmativa gostaria de tecer algumas ponderações. Nós, professores, costumamos pensar que a educação é um processo que ocorre unicamente no âmbito das agências específicas, as escolas. Mas, seria as escola o locus exclusivo da educação? Ou, invertendo, todo aquele que não frequenta a sala de aula estaria privado de uma vida social ou da cultura? Num texto publicado em 1993, o educador Vinal Frago, ao considerar que os homens se comunicam pela fala, independentemente de saber ler e escrever, chama a atenção para o fenômeno desencadeado pelos meios de comunicação modernos. Assim como a escrita produz e reestrutura o pensamento, a oralidade, presente entre os homens há tempos imemoriais, atua do mesmo modo, isto é, cria e organiza modos de pensar. Com o advento dos modernos meios de comunicação, surgiu o que ele denominou por “oralidade secundária”, decorrendo dela uma “alfabetização secundária”, que permite captar e analisar qualquer tipo de linguagem (oral, visual, auditiva), situando os homens como seres sociais, constituindo-os como pessoa.

Creio que muitas outras indagações podem ser feitas. Por hora, me parece suficiente entender a educação como um campo da diversidade e da criação, não da imitação.

*Cáscia Frade possui graduação em Música pela Universidade Federal de Minas Gerais, mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e doutorado em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro . Atualmente é professor da Faculdade Angel Vianna e professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Tem experiência nas áreas de Antropologia e Artes, atuando principalmente nos seguintes temas: tradição, cultura popular, religiosidade, educação e oralidade.