Abya-Yala

a cultura popular identitária da Nossa América

A teimosa memória na encruzilhada do espaço público

Em uma sociedade grafocêntrica, como a nossa, parece “natural” que a memória escrita assuma certa simpatia com aqueles que dominam o código. Todavia, a nossa sociedade não é apenas uma, ocidental por antonomásia, como a pretendem suas elites, e não se narra apenas com palavras.  
por Claudio Barría

Da edição 21 - Espaço habitado, território de criação

Mas não quero ir para mais longe,
desterrado,
porque a minha pátria é a memória.
Não, não quero ser desterrado,
Que a minha pátria é a memória…
(JOÃO GUIMARÃES ROSA – Revolta. Magma)

Até as mais coletivas das gestas ocorrem sempre no lugar, dentro do Horizonte onde se define, para cada um e cada uma, a totalidade-mundo (DUSSEL, 1977c) que lhe confere sentido.  Assim, um exercício interessante seria pensar, por exemplo, os anos de terror imposto pelas ditaduras militares na maioria dos países da Nossa América, entre as décadas de 1960 e 1990, considerando essa íntima relação entre o público e o privado, entre a pólis e o cotidiano.  A despeito de todas as determinações e implicações macrossociais e macro políticas que envolveram aquela experiência, o medo, o silêncio imposto, a autocensura, a dor da perda de um amigo ou de um familiar e mesmo experiências de caráter tão radical e dissímil como a clandestinidade, o exílio e o trabalho coletivo em organizações de resistência, são todas vivenciadas, objetivamente e em última instância, no cotidiano, na esfera do mais íntimo, do privado, do pessoal e afetivo.  E é justamente dessa vivência, desse sentimento objetivado e dessa reconfiguração da política no campo do pessoal e do afetivo, que mana com maior força o tecido da memória e suas narrativas.  

Madres da Plaza de mayo, caminham em silêncio expondo sua dor íntima no espaço público

As “Madres de la Plaza de mayo”, por citar um exemplo emblemático, sobre as que, em seu “direito ao delírio”, Eduardo Galeano diz: as loucas de Plaza de Mayo serão um exemplo de saúde mental, porque elas se negaram a esquecer nos tempos da amnésia obrigatória.  A íntima dor da perda de seus filhos e filhas, a angústia de não saber do seu paradeiro, ante o silêncio impávido do Estado e da sociedade assustada ou cúmplice, foi se reconfigurando em uma narrativa de corpos circulando na praça, no espaço público, ritualizando e, assim, reatualizando uma potência política que, por sua vez, ampliou sua capacidade mobilizadora.  O corpo subvertendo o espaço público se transforma em símbolo.  O lenço branco nunca mais foi apenas um lenço braço e as simples histórias particulares tornaram-se antídoto para a amnésia coletiva em grande parte da Nossa América (PONZIO).

 

[a paisagem que conta histórias e a Memória que reencanta a cidade]

A indagação e produção estéticas não fogem a esta dinâmica e, por vezes, a arte aliada aos invisíveis fios da memória dos comuns cumpre um importante papel nessa disputa cotidiana. No sul do Chile, o povo Mapuche (gente da terra, em Mapudungun, a sua língua ancestral) conta, a través da paisagem, da geografia, inúmeras histórias.  Cada Rio, cada lagoa, cada montanha, transmite significados insuspeitos para o olhar acadêmico ocidentalizado.  Estas histórias fazem parte hoje do imaginário da região, no campo e nas cidades.  Muitas delas sequer são mais reconhecidas pelas pessoas da cidade na sua origem Mapuche, nas regiões de Concepción e ao sul, pela Araucanía.  

Um desses causos conta a história de uma lagoa em cuja superfície poderia se ver, em certas noites, cabeças de negros emergindo.  Segundo manda a tradição científica moderna/colonial, cada história contada, cada lenda é descrita como um mito, com base no princípio do animismo indígena, descartando qualquer possibilidade aproximação do que o relato possa trazer como memória, como testemunho e como sentido ôntico (relativo às coisas, os objetos) e ontogênico (relativo à história de formação do ser).  Ou seja, nos afasta de qualquer possibilidade de compreensão desse outro.

Esquecida por muitos a lenda, na paisagem urbana da região de Penco ficou o nome: “La laguna de los Negros”.  Ficaram também os relatos da sua memória.  Recentemente, entre os anos 2006 e 2007, um grupo de teatro da região, especializado no trabalho com a memória oral, empreendeu uma investigação interdisciplinar para realizar uma montagem teatral com o mesmo nome.  Com base em um trabalho de levantamento da memória viva, transmitida de forma oral pelos moradores, e acompanhada de um levantamento historiográfico, a peça relata a história que remonta a inícios do século XIX.  

Setenta e dois senegaleses, na sua maioria mulheres e crianças, que sequestrados da sua terra pelo então oficial comércio de escravos negros das colônias, tinham sido embarcados no porto chileno de Valparaiso, no navio Espanhol “La Prueba” com rumo ao Porto de Callao.  Liderados pelo velho Babo, secundado pelo seu filho Mure, o grupo conseguiu romper as correntes e na sublevação assumir o controle do navio.  Na luta, o Capitão Benito Cerreño teve sua vida poupada em troca de levá-los a porto seguro.  A intenção de Babo era conduzir o navio, pelo estreito de Magalhães de volta a terras africanas (Vicuña Mackenna, 1869. Pag 433).  No trajeto ao sul, o navio encontrou outro de bandeira norte-americana.  Este, capitaneado por Amasa Délano, que ao perceber a situação abordou o navio.  Da batalha que duraria um par de horas, sobreviveram apenas oito insurgentes.  Estes, entregues ao poder local na baia de Talcahuano, foram condenados à morte, enforcados na praça de armas da cidade de Concepción, e lançados seus corpos no fundo da Lagoa.  Na época, era o costume dos espanhóis afundar os executados, pois considerados seres sem alma não poderiam ser enterrados em solo sagrado.  

Esse acontecimento foi também registrado no livro de memórias de um longínquo parente da família da minha avô, o Capitão Amasa Delano.  Por sua parte, o escritor norte-americano Herman Melville (1819 – 1891) – famoso pelo seu Moby-Dick – utilizou-se do relato para escrever, de modo romanceado, o seu conto “Benito Cereno”, onde relata o mesmo acontecimento, do ponto de vista do Capitão Amasa Delano.  A personagem de Melville, Benito Cereno, é na verdade o capitão Benito Cerreño, ou Don Bonito, como era chamado pela tripulação.

Já na pesquisa da Companhia Teatro del Oráculo, os atores encontraram, além de inúmeros relatos transmitidos oralmente, canções populares e contos que relatam, inclusive, falas de Babo ao momento da condena, justificando sua ação pela crueldade dos seus captores e pela falta de direito de se “roubar homens livres dos seus lares”.   Anos depois, a laguna e seu testemunho de horror foram aterrados.  Assim, os corpos e os nomes de Babo, Mure, Matiluque, Atafal, Natu, Quamoba, Mopenda, Yambazo e os outros, protagonistas todos e todas de uma de tantas e tantas batalhas pela liberdade, foram enterrados junto à lagoa sem nome, sob a cidade que crescia e se expandia de concreto e amnésia.  A peça de teatro que foi origem e produto dessa indagação, apresentada em praças e escolas públicas – entre outras a própria praça de armas em que fora um dia montado o cadafalso – não apenas denunciava o horror, senão que cantando e contando, anunciava a potência da memória coletiva do povo, que mais uma vez saltava do âmbito da vida privada, reinventado o espaço público e a memória coletiva.

E é que há uma relação profunda e íntima entre cultura, memória e identidade; para negar a terceira ou esvaziar sua potência política emancipatória, as duas primeiras são o lugar de uma intensa luta, por meio de estruturas semânticas e narrativas que no enunciar ocultam.  Toda memória é uma narrativa dessa memória.  Da mesma maneira, nos lembra o professor Carlos Walter Porto-Gonçalvez, quem nomeia possui, e o poder de narrar, o lugar da enunciação, é também palco cuidadosamente zelado.  

Em uma sociedade grafocêntrica, como a nossa, é natural que a memória escrita assuma certa simpatia com aqueles que dominam o código.  Todavia, a nossa sociedade não é apenas uma, ocidental por antonomásia, como a pretendem suas elites, e não se narra apenas com palavras.  Enquanto o sujeito hegemônico do Ocidente tem a sua história – e, logo, a sua leitura das histórias subalternas – contada pelas instituições, pelo direito e mesmo pela ciência (SPIVAK, 2010), registrada nos textos de História (com maiúscula), os subalternos e oprimidos carregam a sua história inscrita no corpo, no gesto, nos atos, nas ações, na paisagem. Também na palavra, oralizada e com arranjo a códigos de uma inteligibilidade outra.  

Privada de “notoriedade” e legitimidade institucional, e por vezes perseguida como fonte de subversões, a memória do não-oficial, da vida na subalternidade-mundo, encontra refúgio no âmbito do cotidiano da vida privada e de lá emerge em momentos inesperados, saltando do espaço privado ao público.

Texto extraído e adaptado da tese de doutorado “Pela Poética de uma pedagogia do Sul“, de Claudio Barría Mancilla, PPGE/UFF