Letras e Literatura

reflexões e relatos sobre promoção do livro e leitura

Um lugar para retornar

Dois relatos tramam afetos, vivências, memórias e leituras de Vila Kennedy, Zona Oeste do Rio 

por Beatriz Carvalho e Maria Clara Borges

Da edição 18 - Tecidos e tessituras da Cultura Popular
astrolábio nº 21 ano II set. 2017

I – Unindo juventudes | Maria Clara Borges

Trabalho em dois lugares há muitos  anos.  Em um, desde 1981, no Instituto de Arte TEAR que fica na Tijuca, Zona Norte da nossa cidade. Por ser uma ONG, trabalhamos sempre com diversos projetos, dentro e fora da nossa sede, preferencialmente com crianças e jovens das escolas públicas, assim como educadores ou mediadores de leitura das regiões mais afastadas da cidade.

Em outro, desde 1999, uma escola católica, chamada São Vicente de Paulo, que fica no Cosme Velho, na Zona Sul do Rio e atua principalmente com jovens de classe média alta.  Nessa escola, inspirados em São Vicente, que foi um santo organizador das caridades, preocupado com os mais necessitados, temos como orientação levar os jovens a vivenciar a vida do outro, ampliando seu campo de visão, seu espirito crítico e solidário.

No primeiro semestre de 2015, participei, através do Tear, de um projeto chamado Trilhas Literárias(*), que tinha como objetivo principal formar mediadores de leitura em várias regiões do grande Rio.  Em um desses momentos tive oportunidade de dar uma das aulas do curso que aconteceu na Vila Kennedy.  Até então, não fazia a mínima ideia de onde ficava o bairro, o que acontecia lá, quem eram os moradores…  Neste dia fiquei impressionada com a quantidade de pessoas que apareceram para assistir a aula e com a garra de alguns líderes comunitários que me contaram a luta dos moradores para conseguir melhorar a qualidade de vida para aquela comunidade.

Lembro bem do Jorge Melo me dizendo:

“Professora, meu sonho é fazer uma biblioteca comunitária no Centro Irmãos Kennedy.  Será que vamos conseguir?” – Aquilo não saiu da minha cabeça, mas nunca mais voltei àquele lugar.

Em agosto, a direção do Colégio São Vicente vinha nos pedindo que procurássemos um lugar onde levar nossos alunos adolescentes para vivenciar um projeto social, ajudar alguma comunidade, onde eles se sentissem uteis e onde pudessem colocar a mão na massa, sem ser apenas um trabalho assistencialista.  Logo pensei em voltar à Vila Kennedy e entrei em contato com a Verônica Gomes, assistente social e presidente do Centro Comunitário.

Na hora, ela aceitou fazer a parceria e fizemos nossa primeira visita ao bairro.  Chegando lá fomos recebidos de braços abertos pela equipe da Creche Nino!  Os adolescentes entraram nas turmas e nos berçários, brincaram com as crianças, deram comida. Eles adoraram estar ali! Como combinado, fizemos uma visita por todo o espaço, entrevistando seu Jair e Dona Ana, administrador e diretora da creche.  A ideia era fazer um levantamento das necessidades reais do espaço e das pessoas para ajudar no que fosse necessário.  

A partir daí todos os meses em que tivemos aula, com exceção das férias, organizamos um grupo de jovens para realizar a visita à Vila Kennedy. Cada vez que vamos lá é uma alegria!  Os preparativos, a chegada, as brincadeiras, o lanche… Os olhos dos meus alunos brilhando por estar se sentindo úteis!  Às vezes íamos só à creche, às vezes passávamos também no Centro Comunitário.  A cada necessidade que percebíamos, criávamos uma campanha, íamos buscar ajuda e assim o processo foi caminhando:
Arrecadação de verba para cimentar o pátio; arrecadação de alimentos não perecíveis para a alimentação das crianças; arrecadação de verba para a troca de quatro telhas grandes transparentes; arrecadação de latas de leite em pó; doação de verba da Associação de Pais  (ASPAM) para compra de brinquedos para o parque.  Em um domingo fizemos um mutirão com alunos, alguns professores e pais de alunos do CSVP para pintar a frente e os muros da creche.  

Com exceção da verba doada pela ASPAM, todas as outras ações contaram com verbas arrecadadas pelos próprios alunos!  Nos dois anos do projeto fizemos um bazar na feira anual que acontece na escola.  Arrecadamos para vender roupas, sapatos, objetos usados.  Os alunos do nono e do primeiro ano fizeram também doces e bolos para vender na feira e também passamos muitas vezes um cofrinho pelas salas, para arrecadar o troco dos lanches e suas doações.

DSC00054Há três meses atrás resolvemos encarar a missão biblioteca comunitária!  Conversei com a Denise Mendonça, coordenadora geral do TEAR, que no momento, entre tantos projetos desenvolve um de fortalecimento de bibliotecas comunitárias e pedi ajuda.  Conversamos com a Verônica sobre a biblioteca.

Conversamos sobre o espaço e a possibilidade de unir as juventudes, pois o centro estava abrigando o projeto “Jovens Urbanos”. Este programa busca promover, na perspectiva da educação integral, a ampliação do repertório sociocultural de jovens que vivem em territórios urbanos vulneráveis.  Como eles estavam se envolvendo em vários projetos, porque não tentar envolvê-los com a ação da biblioteca? 

Combinamos uma visita e estive com mais duas educadoras do TEAR no Centro Comunitário Irmãos Kennedy.  Lá vimos o espaço e tentamos planejar como ficaria. Fizemos algumas atividades com os jovens da Vila para quebrar o gelo, para falar de leitura e que significado essa tem nas vidas deles.  Fizemos um convite para que visitassem o Tear, que prontamente foi aceito.  Lá eles conheceram a nossa sede, inclusive a biblioteca, participaram de atividades de mediação de leitura, assistiram ao filme de animação “ Os fantásticos livros voadores do Sr. Morris Lesmore”, debatemos sobre o conteúdo do filme e sobre o acesso à leitura.  Eles ficaram encantados com o espaço e demonstraram estar animados para organizar o espaço no seu bairro.  Combinamos com eles que iríamos com os jovens do São Vicente para ajudá-los nessa tarefa.  

Enquanto isso, no são Vicente, compramos com o dinheiro arrecadado cinco estantes, lixas, pincéis e tintas, tapete de EVA e almofadas. Fizemos uma nova campanha para arrecadar livros e revistas infanto-juvenis.  Contratamos duas vans e combinamos dois dias para o momento mão-na-massa com a biblioteca.  Muitos queriam ir, mas formamos dois grupos de quatorze alunos.  Nos dois dias acompanhei o grupo, sendo que no primeiro também foi conosco a bibliotecária do colégio e no segundo dia a Fernanda, professora do colégio e a Beatriz, que além de bibliotecária do TEAR, nasceu e passou a infância na Vila Kennedy.  

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Foi muito lindo de ver!  Começamos com um jogo de apresentação e descontração e depois começamos a dividir as tarefas.  Misturados e em grupos, eles lixavam e pintavam a porta e as janelas, pintavam caixotes, criavam desenhos para fazer na parede, limpavam e separavam os livros na estante… Enquanto isso trocavam informações sobre suas vidas, musicas e artistas preferidos, redes sociais… E a integração se fez!  Na hora veio na minha cabeça aquela musica do Lulu Santos.  “Só falta reunir a Zona Norte a Zona Sul…”  e foi um gostinho muito bom, de trabalho realizado!

No sábado, conseguimos levar mais uma ação para a Vila Kennedy, unindo o Colégio e o Instituto TEAR.  O nosso projeto “Pé de Livro”.   Descrevemos essa ação como uma tecnologia social leve e portátil para a promoção e mediação de leitura, entrelaçando os sentidos literários e ecológicos.  Seu forte viés político está na ocupação da polis e também na busca em fortalecer as bibliotecas locais, estimulando crianças e jovens a frequentá-las.

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De tempos em tempos, os Pés de Livro tomam jardins e praças da cidade, bem como o quintal do TEAR, abrindo espaço para a contação e leitura de histórias e aguçam a curiosidade de crianças e adultos. Eles brotam para que possamos colher e saborear histórias com gosto de fruta madura.

DSC00062Então, era um prato cheio fazer um Pé de Livro para inaugurar a biblioteca.  Não deu tempo de ficar tudo pronto, estava um dia chuvoso, apenas duas alunas e uma mãe da Associação de Pais do colégio puderam nos acompanhar, mas mesmo assim persistimos e valeu a pena!  Começamos cedo com poucas crianças, adolescentes e adultos, mas aos poucos o pessoal foi chegando, aproveitando para brincar, ouvir histórias e se deliciar com os frutos desse pé.  Foi muito saboroso!

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E agora?  Vão perguntar vocês.  Acabou?  Não!  Ainda há muitos projetos pela frente unindo a juventude do São Vicente com o pessoal da Vila Kennedy.  Mês que vem estamos lá de novo!  Se quiserem acompanhar o projeto é só seguir o nosso blog. Passa lá!

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II – Um novo encontro | Beatriz Carvalho

O conjunto habitacional Vila Kennedy foi construído na década de 1960 para dar moradia às famílias removidas do Morro do Pasmado e da Favela Esqueleto. Distante, bem distante do centro da cidade do Rio, em Bangú. O conjunto é bastante extenso e possui adjacências, além de ter como “morador” o Complexo Penitenciário Gericinó – O presídio Bangu.

Minha história com a Vila Kennedy surgiu na década de 1980. Meus pais, assim que casaram, foram pra lá e eu cheguei logo em seguida. Meus pés davam os primeiros passos em uma comunidade um tanto abandonada, esquecida e que, no entanto, é habitada por moradores mais unidos, que lutam por direitos e melhorias do coletivo.

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Onde eu morava é chamado “Quafá”. O presídio ficava na esquina da minha rua. Na minha época de criança foi inaugurada uma pracinha muito espaçosa. Minha doce lembrança de infância tem pés na praça, na rua: colorida por pipas, com crianças se organizando em filas para irem ao balanço do parquinho, meninos jogando bola, famílias conversando nos portões.
Na minha rua, foi organizado por moradores o “clube da criança feliz”. A querida Sueli, com outros vizinhos como a Leila e a Maria Antônia (a famosa Roxa), organizavam o dia da criança. O dia 12 de outubro era muito esperado, as crianças eram divididas por idade e assim começavam a brincadeiras, gincanas e teatro, o banheiro era na casa do vizinho mais próximo que já deixava a porta aberta. Meus pés não andavam e nem pulavam sozinhos. Não eramos vizinhos, eramos uma família divididas por muros. Caso alguém precisasse de ajuda, sempre tinha o outro ali, pra ajudar com o braço forte, com ombro amigo. Era impossível sentir solidão. E se faltasse luz, todos iam para o portão e começava “a contação de histórias” – contavam histórias de suas vidas, de onde vieram, enquanto nós, crianças, brincávamos de caçar vaga-lumes.

Meus pais achavam o bairro muito distante de tudo no Rio e por isso nos mudamos para Tijuca. Eu tinha 12 anos e foi bem difícil me adaptar. O tempo passou, e eu nunca mais voltei à Vila Kennedy. Até agora. Meus pés seguiram por outros caminhos. Fiz faculdade, me formei em Letras. Comecei trabalhando em escolas, até que meus pés me levaram ao Tear. Lugar que abraça, que luta, que acolhe como meus vizinhos da Vila Kennedy. Não me senti mais só, eu não lutava mais sozinha, meus pés caminhavam num território de infância, com um quintal verde parecido com o da minha casa de criança e eles não estavam mais sós. Havia outras raízes, cada qual com a sua, conscientes e com os pés na terra, orgulhosos de sua cultura. Quando pisei no Tear foi o momento em que mais pensei na Vila Kennedy. Trabalho no Tear há 3 anos como mediadora da biblioteca “Passarim de Barros”. Comecei fazendo contato com as crianças, leituras, brincadeiras, praças e agora, as comunidades.

Cacá (Maria Clara Borges, que partilha da feitura deste relato aqui) já tinha me contado sobre as visitas que ela tinha feito com os adolescentes do Colégio São Vicente à Vila Kennedy, como parte dos trabalhos voluntários. Mas nunca havia me sobrado tempo para ir. Foi quando começou o Projeto Tecelares de Leitura (**). Meus pés visitaram diversas comunidades da grande Tijuca para ajudar as bibliotecas comunitárias. Então, surgiu a ideia de ajudarmos na construção da biblioteca da Vila Kennedy, no Instituto Irmãos Kennedy.

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Foi quando meus pés retornaram para o lugar de onde eu vim. Dessa vez adulta, disposta a construir com eles, como um gesto de gratidão por tudo que essa comunidade lutou por mim. Aqueles adolescentes que visitamos viviam outra realidade, quanta coisa foi melhorada e construída por moradores tão apaixonados e dispostos a lutarem por direitos e cultura! Fizemos uma visita rápida, eramos três representando o Tear. Aqueles olhinhos atentos prestando atenção em tudo que dizíamos estavam desejosos por construir uma biblioteca para sua comunidade: “agora na Vila Kennedy se começa desde cedo a lutar”, pensei.

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Eu, Cacá e os adolescentes do Colégio São Vicente voltamos outra vezes ao Centro Comunitário para trabalhar na construção da biblioteca, como ela conta aí em cima. É lindo ver aqueles jovens de histórias de vida tão diferentes, trabalhando todos juntos, querendo fazer acontecer. Tem sido um prazer estar com eles. Verônica tem feito um trabalho enriquecedor para a comunidade. Uma comunidade que parece esquecida, mas onde os moradores fazem com que ela seja sempre lembrada.

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Se antes tinham os adultos trabalhando pela comunidade, hoje temos os jovens em grande quantidade fazendo uma Vila Kennedy melhor. E que seus pés sejam levados a outras comunidades para que juntos possamos construir e abrir novas perspectivas para uma população tão esquecida (assim como o Tear tem feito). Quem nasceu pisando numa comunidade, sabe o valor que essa terra tem. Somos a maioria do país, por mais que sejamos chamados de minorias. Somos muitos, somos mais. Como o Luiz Antônio Simas falou numa visita ao Tear: “há neste momento um avanço, por mais que as notícias nos mostrem um mundo somente cruel.”

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Assista ao vídeo que fizemos com alunos da Vila Kenedy em uma visita muito especial ao Tear

*Beatriz Carvalho: Formada em letras com especialização em Literatura Portuguesa e Africana, é apaixonada por livros e diferentes culturas, e deseja que todos viagem pela imaginação através da leitura.

**Maria Clara Borges: Pedagoga, Psicopedagoga e Arte Educadora.  Desde 1982 atua no TEAR em diversos projetos e segmentos, como professora e coordenadora.

(*) As ações de promoção do livro e da leitura desenvolvidas pelo Tear em 2015 através do projeto Trilhas literárias, tiveram sua sequência em 2016 no projeto Tecelares de Leitura.

(**) As ações articuladas em torno do Trilhas Literárias e do Tecelares de Leitura fizeram o Tear merecedor do Premio Viva Leitura, pelo MinC, que permitiu as ações de fotalecimento da Biblioteca comunitária da Vila Kennedy que é pano de fundo para os relatos aqui publicados.