Brasilidades

o Brasil profundo, a cultura popular identitária

Vitalino

A arte feita de barro, por um dos maiores mestres brasileiros
por Templo Cultural Delphos

Da edição 20 - Podem as Práticas Artísticas Construir Territórios?

“Eu via fa­zê uma pro­cis­são no ma­to – fa­zê a no­ve­na, bo­tá os san­to no andô, saí o po­vo com o zabumba…Eu es­tu­dei aqui­lo e bo­ta­va no bar­ro…” Mestre Vitalino, em ‘de­poi­men­to’ a René Ribeiro, da Fundação Joaquim Nabuco.

Vitalino Pereira dos Santos (Ribeira dos Campos, Caruaru PE, 10 de ju­lho de1909 – Alto do Moura, Caruaru, 20 de ja­nei­ro de 1963). Ceramista po­pu­lar e mú­si­co. Filho de la­vra­do­res, ain­da cri­an­ça co­me­ça a mo­de­lar pe­que­nos ani­mais com as so­bras do bar­ro usa­do por sua mãe na pro­du­ção de uten­sí­li­os do­més­ti­cos, pa­ra se­rem ven­di­dos na fei­ra de Caruaru. Ele cria, na dé­ca­da de 1920, a ban­da Zabumba Vitalino, da qual é o to­ca­dor de pí­fa­no prin­ci­pal. Muda-se pa­ra o po­vo­a­do Alto do Moura, pa­ra fi­car mais pró­xi­mo ao cen­tro de Caruaru.

Caruaru, Pernambuco, 1947. Foto: PIERRE VERGER

Caruaru, Pernambuco, 1947. Foto: PIERRE VERGER

Sua ati­vi­da­de co­mo ce­ra­mis­ta per­ma­ne­ce des­co­nhe­ci­da do gran­de pú­bli­co até 1947, quan­do o de­se­nhis­ta e edu­ca­dor Augusto Rodrigues (1913 – 1993) or­ga­ni­za no Rio de Janeiro a 1ª Exposição de Cerâmica Pernambucana, com di­ver­sas obras su­as.

Mestre Vitalino se no­ta­bi­li­za por su­as fi­gu­ras ins­pi­ra­das nas cren­ças po­pu­la­res, em ce­nas do uni­ver­so ru­ral e ur­ba­no, no co­ti­di­a­no, nos ri­tu­ais e no ima­gi­ná­rio da po­pu­la­ção do ser­tão nor­des­ti­no bra­si­lei­ro. Ainda cri­an­ça, co­me­ça a mo­de­lar pe­que­nos ani­mais de seu re­per­tó­rio ru­ral: boi, bo­de, bur­ro e ca­va­lo. Na dé­ca­da de 1930, pos­si­vel­men­te in­flu­en­ci­a­do pe­los con­fli­tos ar­ma­dos do pe­río­do, mo­de­la seus pri­mei­ros gru­pos, for­ma­dos por fi­gu­ras de can­ga­cei­ros, sol­da­dos, ba­cha­réis e po­lí­ti­cos. No iní­cio, a cor é ob­ti­da por meio de ar­gi­las de di­fe­ren­tes tons, aver­me­lha­do e bran­co. Depois, Vitalino pin­ta os bo­ne­cos com tin­tas in­dus­tri­ais, o que lhes con­fe­re um as­pec­to ale­gre e lú­di­co. A par­tir de 1953, dei­xa de pin­tar as fi­gu­ras, mantendo-as na cor da ar­gi­la quei­ma­da.

Caruaru, Pernambuco, 1947. Foto: PIERRE VERGER

Caruaru, Pernambuco, 1947. Foto: PIERRE VERGER

As ce­nas que re­me­tem à or­dem e ao cri­me no ser­tão bra­si­lei­ro são re­cor­ren­tes em sua pro­du­ção. Entre ban­di­dos e sol­da­dos, po­li­ci­ais, la­drões de ca­bra e de ga­li­nha, destacam-se as fi­gu­ras dos can­ga­cei­ros Lampião, Maria Bonita e Corisco. Os as­pec­tos so­ci­ais da re­gião, co­mo a se­ca e a mi­gra­ção, são cap­ta­dos em obras co­mo Retirantes. Bastante freqüen­tes são as fi­gu­ras e ce­nas li­ga­das ao tra­ba­lho, que per­mi­tem no­tar a di­vi­são en­tre ati­vi­da­des la­bo­rais e ti­pos mas­cu­li­nos – va­quei­ros, la­vra­do­res, ho­mens car­re­gan­do água ou ti­ran­do lei­te – e fe­mi­ni­nos – la­va­dei­ras, ren­dei­ras, mu­lhe­res co­zi­nhan­do e cos­tu­ran­do. As pro­fis­sões do con­tex­to ur­ba­no, co­mo den­tis­ta, mé­di­co, ve­te­ri­ná­rio, bar­bei­ro, cos­tu­rei­ra, ven­de­dor de fu­mo de ro­lo, tam­bém são mo­de­la­das por Vitalino, em par­te pa­ra aten­der às de­man­das do mer­ca­do. Vale men­ci­o­nar os tra­ba­lhos em for­ma de ani­mais, co­mo boi, bur­ro, ca­va­lo, ca­chor­ro, on­ça, mo­de­la­dos pe­lo ar­tis­ta no de­cor­rer de sua car­rei­ra; a sé­rie em que ele com­põe ce­nas de si pró­prio tra­ba­lhan­do, co­mo em Vitalino Cavando Barro, Vitalino Queimando a Loiça e Vitalino e Manuel Carregando a Loiça; e sua pro­du­ção de ex-votos. Sem se pre­o­cu­par com a con­cor­rên­cia, não se in­co­mo­da que ou­tros ar­te­sãos ob­ser­vem seu tra­ba­lho, imi­tem sua téc­ni­ca e su­as ino­va­ções de mo­ti­vos.

Caruaru, Pernambuco, 1947. Foto: PIERRE VERGER

Caruaru, Pernambuco, 1947. Foto: PIERRE VERGER

Vitalino dei­xa vá­ri­os dis­cí­pu­los, co­mo Zé Rodrigues e Zé Caboclo, além de fi­lhos e ne­tos, que se­guem pro­du­zin­do tra­ba­lhos de ce­râ­mi­ca com o mes­mo re­per­tó­rio te­má­ti­co e o vo­ca­bu­lá­rio for­mal cri­a­do por ele. Boa par­te de seus tra­ba­lhos se re­fe­re aos três prin­ci­pais ri­tos de pas­sa­gem: nas­ci­men­to, ca­sa­men­to e mor­te. As ce­nas de ba­ti­za­dos são co­mo crô­ni­cas do ce­ná­rio ru­ral. O te­ma do ca­sa­men­to apa­re­ce com freqüên­cia, em tra­ba­lhos co­mo Casamento no Mato, O Noivo e a Noiva. Os en­ter­ros tam­bém são com­po­si­ções re­ve­la­do­ras dos há­bi­tos e do co­ti­di­a­no da re­gião. Comparando Enterro na Rede, Enterro no Carro de Boi e Enterro no Caixão, por exem­plo, pode-se per­ce­ber a di­fe­ren­ça de sta­tus dos mor­tos de acor­do com o mo­do co­mo são trans­por­ta­dos. Somam-se a es­ses tra­ba­lhos as di­ver­sas pro­cis­sões cri­a­das pe­lo ar­tis­ta, bem co­mo as ce­nas que re­me­tem a as­pec­tos do ima­gi­ná­rio po­pu­lar, co­mo em A Luta do Homem com o Lobisome (sic), O Vaqueiro que Virou Cachorro e Diabo Atentando o Bêbado.

Caruaru, Pernambuco, 1947. Foto: PIERRE VERGER

Caruaru, Pernambuco, 1947. Foto: PIERRE VERGER

Segundo a pes­qui­sa­do­ra Lélia Coelho Frota, au­to­ra de li­vro so­bre o ar­tis­ta, Vitalino re­pre­sen­ta um agente-chave de trans­for­ma­ção na re­gião. Pelo re­co­nhe­ci­men­to ar­tís­ti­co al­can­ça­do por mes­tres co­mo ele e o su­ces­so co­mer­ci­al da ce­râ­mi­ca no mer­ca­do na­ci­o­nal, a par­tir de sua ge­ra­ção, fa­mí­li­as in­tei­ras se ocu­pam des­se ofí­cio na co­mu­ni­da­de de Alto do Moura, em Caruaru. E trans­for­ma o po­vo­a­do em re­fe­rên­cia na­ci­o­nal na pro­du­ção de ce­râ­mi­ca, con­cen­tran­do cer­ca de 200 ar­te­sãos, con­si­de­ra­do pe­la Unesco um dos mais im­por­tan­tes cen­tros de ar­te fi­gu­ra­ti­va das Américas. Nesse pro­ces­so, Vitalino é o prin­ci­pal agen­te de re­no­va­ção vi­su­al, cri­an­do di­ver­sos mo­ti­vos, e do­no de um es­ti­lo pes­so­al mar­can­te, que se re­ve­la na ex­pres­si­vi­da­de das fei­ções e ges­tos e pos­tu­ras cor­po­rais, na com­po­si­ção te­a­tra­li­za­da das ce­nas. Embora to­dos es­ses as­pec­tos de sua ar­te jus­ti­fi­quem a no­to­ri­e­da­de al­can­ça­da por Vitalino, em cer­ta me­di­da seu su­ces­so es­tá re­la­ci­o­na­do a uma ten­dên­cia cul­tu­ral mais am­pla de va­lo­ri­za­ção dos tra­ços po­pu­la­res, con­si­de­ra­dos ori­gi­nais e exem­plos de bra­si­li­da­de. Inegavelmente sua pro­du­ção é in­ter­pre­ta­da co­mo re­pre­sen­ta­ti­va des­sas ma­ni­fes­ta­ções “au­tên­ti­cas” e “sim­ples” que mui­tos in­te­lec­tu­ais e ar­tis­tas, na pri­mei­ra me­ta­de do sé­cu­lo XX, ele­gem co­mo mo­de­lo.

Caruaru, Pernambuco, 1947. Foto: PIERRE VERGER

Caruaru, Pernambuco, 1947. Foto: PIERRE VERGER

“Eu, além de anal­fa­be­to, criei-me tran­ca­do vi­vo, (…) cis­ma­do que só sa­guim cri­a­do no meio do ma­to.” Mestre Vitalino, em ‘de­poi­men­to’ a René Ribeiro, da Fundação Joaquim Nabuco.

Saiba mais na fon­te

“Estudei um dia de fa­zer uma pe­ça… Peguei um pe­da­ci­nho de bar­ro e fiz uma ta­bu­le­ta; do mes­mo bar­ro pe­guei uma ta­lis­ca e bo­tei em pé, as­sim; bo­tei três ma­ra­ca­nãs (on­ças) na­que­le pé de pau, o ca­chor­ri­nho acu­a­do com os ma­ra­ca­nãs e o ca­ça­dor fa­zen­do pon­to nos ma­ra­ca­nã pra ati­rar” Mestre Vitalino, em ‘de­poi­men­to’ a René Ribeiro, da Fundação Joaquim Nabuco.

O Templo Cultural Delfos é um Repositório Digital de con­teú­dos cul­tu­rais, edu­ca­ci­o­nais, ar­tís­ti­cos e ci­en­tí­fi­cos. Já é con­si­de­ra­do por mui­tos uma das mai­o­res re­fe­rên­ci­as bi­o­bi­bli­o­grá­fi­cas de au­to­res li­te­rá­ri­os de lín­gua por­tu­gue­sa. A sua cri­a­ção insere-se no mo­vi­men­to de Acesso Livre (Open Access) à li­te­ra­tu­ra ci­en­tí­fi­ca, que deu ori­gem a vá­ri­as Declarações e Recomendações, das quais se des­ta­cam a Budapest Open Access Initiative e a Declaração de Berlim so­bre o Acesso Livre ao Conhecimento.